Monday, May 21, 2007

Dinastias Futebolísticas

Nesta secção vou falar de grandes equipas que fizeram enorme furor. Não estou a falar do fabuloso Ajax de Cruyff, nem do Benfica de Eusébio, muito menos do Milan do tridente Van Basten – Gullit – Rijkaard. Nada disso. Estas equipas toda a gente conhece, e o que eu quero é dar crédito aos sub-apreciados.
Assim sendo, vou falar do União da Madeira da colónia brasileira e jugoslava, da União de Leiria que trabalhava em part-time no comboio-fantasma, do Estrela da Amadora e a sua defensiva pré-reformada, e de um Sporting com uma noção errada de defender bem.



Aliança Brasil-Jugoslávia na Madeira

Neste mundo em que vivemos, quem tem o dom da premonição tem o único olho disponível numa terra de cegos. Isto introduz a próxima “RT”:


RATOEIRA TÁCTICA NÚMERO 7: O “EFEITO CICLOPE”

Aqueles que são abençoados pela faculdade da premonição podem e devem tirar partido do seu dom, tomando providências para o que apenas eles sabem que irá acontecer.

Os dirigentes do União da Madeira foram, sem dúvida, um evidente exemplo do “Efeito Ciclope”. Digo isto porque anteciparam dois efeitos da modernidade: a lei-Bosman e a globalização. Estes dois fenómenos juntos fizeram com que, hoje em dia, cada equipa mais estrangeiros do que jogadores nacionais.
Quem olhasse para o União da Madeira há uns anos veria o que estava para acontecer no mundo do futebol. O autêntico clã de jugoslavos e brasileiros que equiparam de amarelo e azul durante a década de 90 foram nada mais do que um presságio para o que aí vinha.
Do leste tínhamos o simbólico guarda-redes Zivanovic, que comandava aos berros os companheiros Dragan, Jokanovic, Jovo, Lepi e Simic.
Depois tínhamos os atletas de Cristo Pedro Paulo, Beto, Leonardo, Milton Mendes, Márcio Luís, Luisão, Manu, Rodrigão e Joilton.
Nesta salada de estrangeiros, resistiram Nelinho, Sérgio Lavos e o capitão Germano.
Recorrendo às estatísticas da época, podemos estimar um 11 inicial para a época de 94/95: Zivanovic; Dragan, Nelinho, Piá e Leonardo; Pedro Paulo, Jokanovic, Sérgio Lavos e Rodrigão; Lepi e Simic. Conclusão: 5 jugoslavos, 4 brasileiros e 2 portugueses.
À frente do seu tempo, a equipa acabou despromovida…



Filme de terror em Leiria

Estávamos no início da época de 94/95. O Benfica preparava-se para iniciar uma longa travessia no deserto, e a União de Leiria faria o percurso inverso, regressando ao convívio dos grandes para se afirmar como um dos valores seguros da principal divisão nacional. Sinal desta afirmação foram os resultados entre as duas equipas durante a época: vitória do Leiria em casa por uma bola a zero, golo do central que se haveria de transferir para o Sporting, Luís Miguel, e empate a uma bola na Luz, com golos de Paulo Pereira para os encarnados e um empate tardio para a União, autoria do «rato atómico» Fua.
Surpresa para muitos, nada mais que justiça para os verdadeiros sabedores do futebol em todas as suas vertentes, foi o 6º lugar alcançado pela equipa nessa época de regresso.
Como conseguiu Vítor Manuel levar uma equipa que aparentava ser uma colecção de lacunas a ficar um ponto aquém da qualificação para a Taça UEFA? Tratou-se de uma arriscadíssima aposta na chamada “táctica estética”. Passo a explicar:


Táctica Estética

O futebol é um jogo para homens de barba rija, embora quase ninguém leve essa expressão à letra. O único jogador do Leiria que o fazia era o médio argentino Gabriel Gervino. Ora os homens querem-se feios e maus. Para as equipas “menores”, convém ter quantos mais jogadores feios e maus quanto possível. O apogeu desta táctica registou-se com a União de Vítor Manuel.


Corolário da “Táctica Estética”:

A ausência de beleza estética é proporcional ao pânico provocado na equipa adversária, o que se reflecte dentro de campo e finalmente na tabela classificativa. Trocando por miúdos : Quanto mais feia a equipa, melhor!


Olhando para o plantel do clube nessa época, constatamos que a baliza do veterano Álvaro estava bem protegida por grandes intérpretes da atrás referida táctica:

Os dois centrais de serviço eram Luís Manuel e Crespo. Enquanto que o primeiro foi uma das revelações da época, Crespo era um jogador de nauseabunda envergadura física. Aliás, ambos o eram. 187 e 185 centímetros de altura eram um bom cartão de visita e um seguro de inviolabilidade para a baliza do Leiria.
Como se a dupla no eixo da defesa não bastasse, Vítor Manuel usava ainda uma dupla de trincos que em nada envergonhava os companheiros na traseira. Michael Kimmel era um deles. Tratava-se de um germânico que floresceu à beira do Lis.
O seu companheiro de sector era o argentino Gervino. O europeu, pequeno mas fisicamente seco, era um trabalhador incansável. O sul americano, por seu lado, era um jogador possante e com enorme gosto pelas subidas no terreno, não se envergonhando na altura de apresentar o seu forte pontapé aos guarda-redes adversários.
Os pontos fracos da defesa, do ponto de vista visual, eram as faixas laterais. Bilro, um clássico do clube, e Leonel, um micro-machine de jogador, ambos antigos leões, ocupavam-se das mesmas, mas não prezavam pela repugnância estética.

Nos jogos tremendamente complicados, em que a “táctica estética” tinha que ser levada ao máximo, o mister puxava dos galões e, para além dos 7 jogadores atrás citados, punha em campo mais quatro jogadores, estes de cariz ofensivo, também especialistas neste tipo de jogo.
O ponta-de-lança Nelson Bertolazzi, goleador da equipa, era municiado por um tridente de fantasistas: Fua, o rato-atómico, Pedro “cabelos ao vento” Miguel e Mário “amplitude visual de 360º” Artur.
Foi, certamente, das tácticas mais assustadoramente eficazes da história técnico-táctica do futebol nacional. Com uma equipa por quem ninguém dava nada no início da época, Vítor Manuel conseguiu um fabuloso 6º lugar, feito certamente de louvar. Isto vem apenas provar que as equipas pequenas, com peças que se encaixem a um bom tabuleiro de xadrez, podem fazer furor no campeonato nacional.



Lar de Idosos da Reboleira

Falo, evidentemente, daquela defesa do Estrela da Amadora que tinha idade para ter estado presente no Mexico’86.
A soma das idades era, no mínimo, perto de infinito. No início da época 97/98, a defesa (guarda-redes mais o quarteto) contabilizava nada menos do que 167 longos anos, o que dá uma média de 33,4 anos. Isto tudo porque o lateral direito só tinha 27 anos. Vamos imaginar duas situações que, embora hipotéticas, eram possíveis e nos teriam dado imenso jeito:

1. A tramada lesão de Rui Neves

O lateral direito, Rui Neves, lesiona-se gravemente na pré-época, e vai passar a fase de recuperação para Aveiro com o seu irmão gémeo, Jorge Neves. O Estrela tem que comprar novo defesa direito. O eleito é José Rui, possante defesa do Setúbal, que conta 33 primaveras. Ainda tentaram contratar Quim Machado, mas como só faz duas épocas por clube e já havia estado na Reboleira, ficou automaticamente fora de hipótese. A média sobe logo para 34,6!

2. Mudança táctica de Fernando Santos

Para celebrar o seu 47º aniversário em grande, o mister Santos resolve cometer uma “loucura”. Primeiro pensou em cortar a barba (mal sabia ele a rapadela que estava para vir), mas acabou por se decidir pela implementação de um sistema defensivo de três unidades.
Ora isto, para o nosso caso, é ouro sobre azul. A média dispara para 35 anos de idade, bela altura para começar a considerar uma carreira de adjunto.

Passando agora para os jogadores propriamente ditos, a lógica diz que devemos começar pela baliza. Assim sendo, passamos a apresentar o defesa esquerdo, Fonseca. Com 33 aninhos cheios de genica, começou no Benfica, passando pelo Guimarães antes de chegar à Amadora.
A dupla de centrais era formada pelo capitão Rebelo, e pelo “palito” Leal. Enquanto que o histórico líder dos tricolores já se apresentava com 37 anos de idade, o ex-sportinguista ainda estava para as curvas com 33 primaveras.
Finalmente, com 38 anos, o guardião era Ivkovic , outro antigo jogador leonino (pode-se mesmo dizer que a Amadora serviu de museu do Sporting) e internacional jugoslavo.
Eram todos, evidentemente, jogadores com imensa experiência futebolística. Juntos, os “4 Mosqueteiros de Parkinson” contabilizavam mais de 800 jogos na 1ª divisão nacional.



Três Tristes Trincos

À imagem de Berlim, também o Sporting teve o seu muro “inultrapassável”. Não, não falo do grande senhor das balizas Filip De Wilde, e a sua temível técnica do “cai-para-o-chão-com-o-braço-esticado-em-vez-de-te-atirares”, se bem que foi contemporâneo do dito muro.
Falo, sim, de uma táctica usada pelo Sporting em 97/98, uma fatídica época em que o Sporting teve quatro treinadores. Octávio Machado, Francisco Vital, Vicente Cantatore e Carlos Manuel.
Há clubes que só usam um trinco, pois têm grande propensão ofensiva. Outros clubes preferem garantir a conquista do meio campo, zona nevrálgica do terreno, utilizando dois trincos, assegurando assim maior segurança defensiva.
Inovador como sempre, o Sporting inaugurou a táctica de três trincos. De entre os quatro disponíveis, Oceano, Pedro Martins, Vidigal e Lang, o técnico deixava um de fora à vez.
Seria de esperar uma solidez defensiva fabulosa, com oito jogadores em campo com missões maioritariamente defensivas. Infelizmente, tal não aconteceu, dando razão à velha máxima “a melhor defesa é o ataque”.

Outro ponto que poderá estar relacionado com os maus resultados dessa época foi o gosto subitamente adquirido pelos jogadores leoninos pela milenar arte da agressão gratuita. Expulsões atrás de expulsões foram marcando os jogos do Sporting.
Esta violência talvez fosse um grito mudo de socorro por parte dos jogadores, pois o mister Carlos Manuel obrigava todo o balneário a cantar junto em alentejano.

Carlão era certamente um homem muito motivado nos seus últimos dias em Alvalade, pois como ele próprio dizia, há que «ganhar motivação com os assobios». (Esta curiosidade em nada tem a ver com a história táctica que eu estava a contar, mas achei que ficava bem aqui. Um quadro também não tem nada a ver com a parede, mas fica bem pendurado na mesma).

Tal como o muro de Berlim não foi grande solução, também os resultados finais não auguraram nada de bom para esta táctica: Sporting ficou em 4º lugar no campeonato, com 45 golos marcados e 33 sofridos, e foi eliminado na fase de grupo da Champions League às mãos de Leverkusen e Mónaco.

5 comments:

Rui said...

Dizer que o União da madeira desceu porque tinha demasiados estrangeiros não fica bem.
Esta época o União tinha 6 estrangeiros, 13 madeirenses e 10 continentais e ficou em 1ª lugar da 2ª divisão série B e não subir de divisão pois perdeu o play off.
É verdade que foi mau o União jogar com tantos estrangeiros mas nem todos os estrangeiros eram maus jogadores.
Acho curioso é que este ano o maritimo jogou com 11 estrangeiros e toda a gente acha nornal e quando o União jogva com 9 estrangeiros era o fim do mundo.
O União actualmente tem 6 estrangeiros no plantel enquanto o maritimo e nacional teem tido mais de 19 estrangeiros nos planteis dos ultimos anos e ninguem critica....

Rui said...

http://cfuniaomadeira.queroumforum.com/index.php

LCF said...

Rui,

não só dizer isso não fica bem, como enfureceria Germano, esse fabuloso central que deu cartas no futebol nacional e que, "apesar de português", se cotou como dos melhores elementos desse plantel do União.

Não tracei qualquer relação causa-efeito entre o número barbárico de estrangeiros e a descida de divisão, isso já foi o teu astuto inconsciente.

O que eu referi foi o vanguardismo do grémio madeirense, como provaste tu mesmo com referências actuais: em 1995 o União fazia exactamente o que muitas equipas vieram a fazer principalmente após a famigerada Lei Bosman, e aí cito o teu exemplo do Marítimo, entre demasiadas outras equipas. Se inovador para bom ou para mau, deixo ao critério de cada um. Agora que Lepi, Simic e Zivanovic eram acrescentos categóricos à nossa antiga primeira divisão, pouca gente contestará.

Rui said...

O mal do União é ter tido nestes 13 anos maus (péssimos) dirigentes que afastaram os adeptos do clube e fizeram do clube mais uma empresa do grupo do chefe.
A Unica melhoria destes 13 anos é jogamos com 7 madeirenses e os estrangeiros serem bem poucos no plantel.
Não tenho nada contra jogadores estrangeiros desde que sejam melhores que os nossos jovens.Não gosto é de ver a maioria dos clubes a trazer 15 ou mais estrangeiros e desperdiçar os jogadores das camadas jovens que em muitos clubes mereciam mais oportunidades.
Jogadores como o zivanovic,simic e Marco Aurelio são sempre bem vindos ao União mas contentores de turistas como em anos passados nunca mais (espero eu).

Rui said...

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