Monday, May 21, 2007

Factos e Figuras: O Pé de Atleta de Jokanovic

Há certos jogadores que se podem gabar de terem jogado pelos três grandes.
Depois desses, há aqueles que se podem gabar do facto de terem vestido a camisola dos três grandes da Madeira. Para o polivalente jugoslavo Slavisa Jokanovic, esse é o caso.
Tendo começado a carreira no União da Madeira, jogando a médio, fez parte do já célebre cardume de jugoslavos que alinhavam no clube por essa data.
Foi também por essa altura que Latapy fez questão de lhe deixar a perna apontada para Trindade & Tobago, com uma daquelas entradas que arrepiam os pelos da nuca à assistência.

Jurou vingança, que chegaria já com as cores do rival Marítimo, clube para o qual se mudou quando o União foi relegado para as divisões secundárias.
No ocaso da carreira ainda teve tempo para ingressar no Nacional, recém-promovido à 1ª divisão. Um histórico do arquipélago.

Eterno Capitão

Há casos em que, quando me lembro de um clube, lembro-me imediatamente de um jogador. Um símbolo vivo que simboliza toda a mística da camisola que enverga. Uma década no clube, com direito a lugar de estacionamento com o seu nome, e braçadeira a dizer “capitão”.


Manuel Correia

Ao olhar para este central altaneiro, de bigode castanho, fisionomia típica de um homem do norte, trabalhador incansável em prol da equipa, pondo os interesses comuns à frente dos individuais, pensava sempre num capitão ideal para qualquer equipa.
Aos 25 anos já parecia ter 33. Isto incutia respeito aos adversários, companheiros de equipa e ate aos misters. Uma belíssima carreira, que teve o seu auge em Trás-os-Montes, no Chaves, clube pelo qual fez partidas memoráveis. Outra coisa que fez foi uma dupla de furor com outro peso pesado do clube flaviense, Paulo Alexandre, seu sucessor como líder e capitão da equipa. Fica para sempre como um dos centrais históricos do futebol nacional.



Rebelo

Trata-se do mais famoso avôzinho do futebol português. Um jogador com uma carreira deveras peculiar, pois chegou ao Estrela da Amadora aos 26 anos, estreou-se na época seguinte na 1ª divisão, e equipou de tricolor durante 14 épocas. Somando dois mais dois, jogou até aos 40 anos.

Um jogador com tamanha experiência e simbolismo tem dois dos três ingredientes fundamentais para ser um grande capitão de equipa. O outro? A braçadeira, que lhe foi justamente atribuída. Trata-se, sem margem para dúvidas, de um dos maiores símbolos da história do clube da Reboleira, tendo estado presente na maior conquista do clube, a Taça de Portugal em 89/90.

Formou, também, uma das mais belas dinastias futebolísticas de que há memória nos nossos relvados, denominada como “Lar de Idosos da Reboleira” .
Deixou saudades, e o Estrela desde então nunca mais foi aquela equipa cativa na 1ª divisão.



Hélio

Se há um jogador que simboliza toda a mística sadina, esse jogador é Tó Sá. Agora, se há um jogador que ficará para sempre ligado à braçadeira de capitão do Vitória de Setúbal, esse jogador é com certeza Hélio.
Toda uma carreira ao serviço do clube dá-lhe esse estatuto. Sénior desde a longínqua época de 87/88, com centenas jogos disputados pela equipa no principal escalão (já esteve 4 épocas na 2ª divisão), Hélio chegou inclusive a equipar por uma ocasião a camisola de Portugal.
Apesar de ter sido dado muitas vezes como uma possível contratação do Porto, nunca chegou a dar “o salto”. Apesar disso, e bom mecenas como qualquer verdadeiro capitão, ajudou muitos jovens a dar o tão ansiado salto. Frechaut, campeão pelo Boavista e internacional português, começou como médio, ao lado do grande capitão. Outro beneficiado de jogar lado a lado com Hélio foi Mamede, hoje em dia na Série A italiana. Exímio executante da arte de rasgar defesas com passes fatais, isolou por diversas vezes grandes jogadores como Toñito (transferiu-se posteriormente para Alvalade), Kassumov (internacional azeri), ou mesmo Marco Ferreira (deu “o salto” para o Porto e depois para o Benfica). E, como qualquer bom trinco, não podia descurar o auxílio aos elementos mais recuados da sua equipa. Assim sendo, jogadores como Mário Loja (saiu para o Boavista), Nogueira (antigo internacional) e Nuno Afonso (o exilado) jogavam de uma forma muito mais confiante sabendo que o seu capitão lhes resguardava as traseiras.
Será para sempre recordado como um dos maiores símbolos de sempre do Vitória Futebol Clube, ao lado de outros grandes nomes como Yekini, Chipenda, Quim (outro eterno sadino) e Vítor Baptista.

Pequenos Affairs 3: Martin Pringle, como as batatas!

Pringle: No plural, sinónimo de deliciosas batatas fritas. No singular, sinónimo de pseudo avançado sueco.
Chegou a Portugal com uma história engraçada: tinha sido até há pouco tempo defesa central, mas havia sido adaptado com sucesso a ponta-de-lança. Para ter efectivamente alguma piada, a história terá de ser enquadrada na secção de humor negro.
A carreira de Martin no Benfica resume-se a três épocas estatisticamente curiosas. Para melhor observar a curiosidade, uma grelha:


Maldito mister que não o fez alinhar o 13º encontro em 1998, senão Pringle teria sido um sucesso do ponto de vista de curiosidades estatísticas, já que futebolisticamente falando vinha rotulado de flop desde o início. Um ponta-de-lança cujo máximo de golos marcados numa época era de 7 (nas últimas três épocas somava 15 golos), não augurava grande coisa…
Internacional Sueco (1 vez), talvez poderia ter sido utilizado como “poste de electricidade”, dada a sua elevada estatura (1,90 metros). No entanto, postes mais altos se levantaram, não dando hipóteses ao moreno nórdico.

Quem Te Viu e Quem Te Vê...

Não só David Bowie e Madona mudam radicalmente de visual, embora esses dois mudem várias vezes. Também os jogadores de futebol mudam muitas vezes de look, principalmente no que se refere aos seus penteados. David Beckham e Simão Sabrosa são exemplos antagónicos.

Sim, esta secção, segundo a lógica, deveria estar junto aos dramas capilares. Mas se já chegou a meio desta obra e ainda julga a mesma se rege pela lógica, então feche-o imediatamente e vá dar um mergulho na piscina. Se não tem piscina regue a sua cabeça com sumo de laranja, de preferência muito doce e com muita polpa, para que este fique perpetuamente peganhento. De seguida, volte à leitura, não sem antes lavar as mãos porque senão caga o livro todo. (toda esta interactividade livro leitor é tão real e fascinante que, por vezes, até assusta! Chega mesmo a rivalizar com aqueles livros para crianças em que figuras saltam para fora da folha ao abrir a página, revelando um mágico mundo bidimensional!).


Vamos dividir os casos por secções, porque assim ocupa mais espaço:



Aumentar para se tornar mais assustador

Os centrais têm que intimidar os atacantes. Isto é uma das verdades absolutas do futebol, juntamente com “quem marcar mais golos, ganha”.
Trazemos hoje a público o caso de dois rapazes que passaram de meros jovens defesas com potencialidades a grandes nomes do nosso futebol.
Isto porquê? Não foi porque treinaram muito, nem porque aprenderam com os seus companheiros mais veteranos, como Aloísio e Mozer. Foi, sim, porque abriram as portas da sua cabeça a uma quantidade incomensurável de cabelos.
Começando com o antigo capitão da selecção das quinas, Fernando Couto, outrora um defesa com ar de jovem inocente. Quem diria que se viria a tornar num consagrado caceteiro, vencedor de inúmeros títulos em Portugal, Espanha e Itália?
Pode-se ver pelas fotografias que, inicialmente, Fernando tentava fazer cara de duro, mas sem grande sucesso. Graças ao seu desenvolvimento capilar, na fotografia do depois ele até toma a liberdade de sorrir e continua com de tipo rude que não está para grandes conversas!
Há que dar os parabéns a quem aconselhou Couto a deixar crescer o cabelo, pois a essa pessoa se deve a brilhante carreira de um dos melhores centrais portugueses de sempre.


Outro exemplo óbvio é o do injustiçado (para alguns, incluindo o próprio) defesa benfiquista e antigo internacional, Paulo Madeira.
Tendo começado como uma grande esperança benfiquista, cedo se desencontrou do bom caminho, tendo passado pelo Marítimo e pelo Belenenses, antes de regressar à luz.
Foi precisamente no Restelo que Paulo encontrou a peça que faltava ao seu jogo: um ar ameaçador! Assim sendo, deixou crescer o cabelo e a sua carreira floresceu. Chegou mesmo a titular da selecção ao lado de Couto, naquela que ficou conhecida como a dupla de centrais capilarmente mais volumosa da história da nossa selecção.
Infelizmente para ele, acabou tristemente a sua carreira de encarnado vitima das criticas que o acusavam de ser o cancro daquela defesa benfiquista que acabou o campeonato em 6º lugar (pior classificação na história do clube).



Diminuir para se tornar mais assustador

Por vezes, caminhos opostos levam ao mesmo destino. Tal como os últimos dois jogadores referidos, também o defesa setubalense Figueiredo tinha um imenso desejo de se tornar medonho para os adversários e pretendentes à sua esposa. Para atingir esse objectivo, e dado que não podia deixar crescer mais o cabelo senão corria o perigo de tropeçar no mesmo (ou de ser apelidado Rapunzel do futebol nacional), decidiu cortá-lo.
Assim sendo, o tradicional penteado de mulher-a-dias deu lugar a um penteado curto mas sóbrio, digno de central com pergaminhos no nosso campeonato. Para tal também contribuiu a cedência do sorriso à defesa manso em prol de um rosto duro de quem já passou por muita privação na vida.
O caminho para a absolvição capilar de Figueiredo deveria ser tomado como exemplo para muito bom jogador assolado pelo drama dos maus penteados.



• Mudar para ficar aerodinâmico

Para um extremo há dois atributos que são muito importantes: ter as duas pernas e ter velocidade. Também dá jeito saber cruzar bem a bola para a área, mas demasiadas vezes isso já é pedir muito.
Partindo do princípio que a grande maioria dos extremos já tem o primeiro atributo, resta focarmo-nos na velocidade. Hoje em dia ganha-se um sprint por milésimas de segundo, logo todos os pormenores são importantes de modo a tornar o jogador numa máquina aerodinâmica.
O exemplo que trago aqui é o do extremo esquerdo do Gil Vicente, Lim (um repetente neste livro, mas este penteado e as razões por detrás da sua existência têm de ser propriamente analisados). Era um jogador forte e rápido, dono de um pé esquerdo insaciável por assistências. Contudo, faltava algo para lhe dar “aquela margem” de vantagem sobre a competição. Lim já se depilava, pelo que apenas faltava dar o último passo para ser totalmente aerodinâmico: o cabelo.
Se tivesse rapado o cabelo, poderia ter-se tornado num dos melhores extremos esquerdos do mundo. Vaidoso, no entanto, ficou-se pela aplicação abundante de gel, uma solução de recurso, tendo ficado apenas como um bom extremo do nosso futebol.



O drama do irreconhecimento

Após uma boa época ao serviço do “seu” Beira-Mar, Lobão decidiu ser irreverente. Queria cometer uma loucura. Não mais uma daquelas suas entradas assassinas, isso já estava muito rodado. Comprar um carro novo também não, pois toda a gente sabe que o defesa tinha grande orgulho no seu Seat (dos poucos jogadores que não compram um carrão com os primeiros salários, o que é de celebrar!). Assim sendo, decidiu-se por começar a usar uma fita na cabeça, para prender o cabelo e melhor ver o alvo da sua próxima entrada a dois pés, por detrás!
Mal sabia Lobão na embrulhada em que estava prestes a meter-se… Como se pode ver pelas fotografias (antes e depois), o defesa ficou virtualmente irreconhecível graças a um mero adereço. Consequência: de jogador com créditos firmados no futebol nacional passou a rookie sem provas dadas.
Ninguém sabia quem era o novo jogador que havia chegado a Aveiro. As suas tentativas de explicação, “Sou eu malta, o Lobão… Auuuuuuuu!!!”,* saíam invariavelmente furadas.
A moral da história reside no facto de que uma mudança de visual demasiado radical pode deitar a perder toda uma reputação construída com o suor proveniente de trabalho sucessivo durante anos a fio.

* tentativa, algo infeliz, de imitar o uivo de um lobo.

Factos e Figuras: Constantino, Sumo Concentrado

Um eterno reforço dos clubes grandes, Constantino fez história com o verde e branco do Leça da Palmeira. Uma mescla de Bebeto e Romario, Constantino era homem para fazer sozinho no ataque do seu clube o que os dois brasileiros faziam em conjunto pelo escrete.
Sempre bem apoiado por Nando na esquerda, Serifo na direita e Cristóvão na rectaguarda, por vezes o mister Rodolfo Reis, nos jogos em casa, contemplava-o com uma muleta: Fran ou Loinaz, poderosos avançados espanhóis que prendiam os centrais, dando maior liberdade ao veloz e irrequieto numero 7 nortenho, um símbolo não só do clube, mas também de toda a região.
Um dos sinais que distingue os grandes pontas de lança dos outros, os menos grandes, é o faro para marcar golos nas situações mais complicadas e nos momentos mais críticos. Constantemente perdido (ou será que deverei dizer escondido, tirando vantagem da sua baixa estatura) no meio de uma enorme floresta de pernas peludas, Constantino tinha o condão de aparecer na hora H para, aproveitando o seu apurado faro goleador, empurrar o esférico de encontro ao véu da noiva.
Assim sendo, Constantino será para sempre relembrado como um dos maiores “ratos de área” do futebol português.