Thursday, April 12, 2007

Factos e Figuras: Onde Está Chiquinho Conde?

Quem não se lembra, com nostalgia, de ficar horas a fio à procura de Wally num livro repleto de ilustrações tão coloridas quanto lotadas.
É nesse mesmo estado de confusão e perseguição que Chiquinho deixava os adversários. Não por usar um boné encarnado e branco e se esconder no meio de milhares de pessoas que não conhece de lado nenhum. Wally integrava-se igualmente bem quer num mundo cheio de Vampiros, quer num mundo de painéis solares. Chiquinho nem tanto. Fora de Setúbal, um avançado pequeno e algo vulgar. À beira Sado, um portento, uma ameaça constante, um jogador que apresentava sempre um brilho nos olhos e aguardava pacientemente pela oportunidade de fazer o gosto ao pé. Ao serviço do Vitória fez as suas duas melhores épocas: em 1993, jogou por 30 ocasiões, tendo marcado por 15 vezes; mais tarde voltou ao clube, a tempo de disputar 28 jogos e marcar 14 golos, decorria o ano de 1998. Contabilizou também 35 internacionalizações por Moçambique.
Voltando ao estado lastimável em que deixava os adversários, isto ocorria devido à sua reduzida dimensão física (1,71 metros) que o tornava difícil de detectar, e à sua fabulosa rapidez. Assim sendo, os defesas adversários, quando finalmente viam Conde, muitas vezes era já demasiado tarde e a bola já havia encontrado o fundo das redes.
Um dos melhores e mais carismáticos avançados que jogaram no nosso campeonato na década de 90. Na memória fica o fabuloso tridente atacante que formou com Yekini e Chiquinho Carlos, e o coroar de uma grande carreira com a transferência para Alvalade.

"Nasci com 40 anos"

Há jogadores que, no início da carreira, com meros 19 anos, já têm cara de capitão e elemento mais antigo do plantel. Quer pela expressão facial, quer por falta de cabelo ou dentes, saem dos juniores para o plantel principal e já têm uma série de jogadores a pedirem-lhes dicas e conselhos baseados na sua inexistente mas aparente vasta experiência.
O caso mais pragmático será, como toda a gente estará à espera, o de Wilson, central do Belenenses e de Angola.


RATOEIRA TÁCTICA NÚMERO 5: O “EFEITO NASCI COM 40 ANOS”

Baseia-se na máxima “respeitinho é bonito e eu gosto”. O jogador, parecendo de uma geração diferente, receberá um tratamento mais cordial e cerimonioso, do qual se aproveitará para melhorar as suas prestações em campo.



Wilson

Existem 5 ingredientes-base para tirar partido desta “RT” ao máximo. Wilson, como maior expoente do “Efeito nasci com 40 anos”, contém na sua figura esses 5 elementos:

1. O ar cansado (provavelmente de estar farto de ouvir a dupla romântica Roberto Carlos e Néné Santarém, seus companheiros em Barcelos);

2. O cabelo pouco cuidado (o que não tem grande justificação, pois esteve no mesmo clube que Lim, o rei do gel);

3. A barba de três dias;

4. O caminhar algo corcundesco*;

5. O ar cansado (só para dar mais ênfase ao cansaço, que nunca é demais).

Há ainda um ingrediente (melhor dizendo, talvez será uma condição) extra, que é o facto de o jogador não poder ser verdadeiramente velho. Isto simplesmente porque um velho com ar de velho não vai conseguir tirar partido das suas jovens condições físicas para ganhar vantagem sobre o adversário, dado que não tem jovens condições físicas.
Agora se falarmos de um velho com acesso ao poço da juventude, esse sim pode usar esta “RT”, desde que se continue a aparentar como um velhote, apesar de possuir as condições físicas de um jovem.

*andar típico de um sujeito com uma corcunda, ou algo marreta.


Voltando ao jogador, tudo isto pode prejudicá-lo esteticamente. No entanto quem ri por último ri melhor, e quem olhar para os números da carreira de Wilson verá que estamos perante um autêntico génio das “RT”.
Começou como médio no Gil Vicente, em 1994, mas foi quando se transferiu para Belém, em 1999, que se tornou num dos melhores e mais sóbrios centrais do futebol português. Com mais de 200 jogos no principal escalão, formou uma grande dupla de centrais com Filgueira (o estrangeiro recordista de jogos na 1ª divisão, mais de 400).
O internacional angolano será, certamente, dos melhores centrais dos últimos anos em Portugal. Poderia ter voado bem mais alto se não tivesse passado tantas épocas nos escalões secundários. Por outro ângulo, também é verdade que se tivesse voado mais alto, tinha apanhado com mais vento na cabeça e teria ficado careca mais cedo, o que, de acordo com a premissas anteriores, apenas o ajudaria, pelo que prova o contrário do intuito com que esta frase foi aqui colocada.


Manuel Correia

Sempre tive uma dúvida… Se o diminutivo de Manuel é Manel, então porque não diminuir também o nome de Emanuel para Emanel?
Isto para apresentar o próximo quarentão, Manuel Correia, o eterno líder da defesa flaviense. Caso raro de lealdade no futebol nacional, contudo com uma evidente explicação: Os clubes gostam de comprar jovens. Não se vê muitos clubes a investir em jogadores de 32 anos. Ora Manuel, aos 25 anos, já se assemelhava com um veterano de 33, que era a idade que transparecia para os potenciais interessados. Conclusão desnecessária por ser mais que óbvia: ninguém o tentava comprar.
Sorte para o Chaves que contou durante épocas a fio com um sólido central, sóbrio e eficaz, e que ensinou a escola toda ao seu sucessor no eixo da defensiva transmontana, Paulo Alexandre.


André

Escolhi André como podia muito bem ter escolhido Jaime Magalhães, Semedo ou Bandeirinha. Falo daquela famosa equipa do Porto que parecia saída do campeonato da 3ª idade, tantos eram os carecas em campo. No entanto, André compensava a falta de cabelo com enorme garra, imagem de marca das equipas nortenhas.
Eram todos jogadores de imensa tradição no Porto, ou não tivessem equipado de azul e branco durante toda uma década. O que nos diz isto? Que as Antas provocam queda de cabelo. Felizmente que outros valores como Kostadinov e Fernando Couto, com as suas grandes cabeleiras, saíram a tempo do clube. Basta ver o que acabou por suceder a Jorge Costa.


Cao

O caso do cabo-verdiano é diferente dos outros. Rezam as crónicas que Cao não aparentava ser mais velho, ele era mesmo mais velho. O quê? Pergunta o leitor.
Para melhor explicar, trago de volta à memória o caso de Gil, membro da geração de ouro de Carlos Queiroz, juntamente com Figo, Rui Costa e João Pinto. Apesar de ter apenas 21 anos no papel, dizia-se que tinha, na realidade, mais alguns aninhos nas pernas. Isso explica o facto de ter acabado a carreira bem mais cedo.
Mas porque é que isto acontece? Como moram longe dos registos civis, as famílias em África aproveitam e vão registar os filhos logo todos de uma vez, de modo a poupar na viagem. Assim sendo, é comum aparecer um rapaz de 10 anos no registo a dizer: “nasci!”.
Agora que isto está explicado, voltamos a Cao. Também ele foi campeão mundial de sub-20 em 1991. No entanto, esse foi o auge da sua carreira, tendo posteriormente passado por clubes como o Leça, Salgueiros, ou Campomaiorense.
Podem achar que isto é batotice mas, para além da vossa opinião pouco interessar aos intervenientes, trata-se de uma faca de dois gumes. Está certo que têm a vantagem de estarem mais desenvolvidos fisicamente nos escalões de formação, mas por outro lado acabam por jogar menos épocas a sénior, altura em que se ganha o dinheiro a sério.
Actualmente tem-se a mesma dúvida com o avançado do Benfica Pedro Mantorras e com o trinco Ednilson, mas isso agora não interessa a ninguém, e aproveito para desejar as melhoras ao avançado, apelando para que não voltem a fazer uma grande jantarada com todo o plantel encarnado, deixando-o de fora…

O 1 em 4x5x1

No futebol português é apanágio usar-se apenas um ponta de lança. É quase como que uma lei instituída na mentalidade dos treinadores. Mas a lógica prossegue. Outra lei instituída na nossa sociedade é a máxima quanto mais, melhor! Junta-se as duas e tem-se o corolário do ponta-de-lança em Portugal:


Corolário do ponta-de-lança em Portugal:

«Já que só posso utilizar um ponta de lança, quanto maior, melhor.»



E esta é a base ideológica do efeito poste-de-electricidade, que conheceu o seu apogeu na figura de José Torres e, mais recentemente, no gigante checo Jan Koller. Só que nem sempre se arranja um jogador móvel e com bons pés, de dois metros de altura. E os treinadores, quais músicos de jazz, improvisam! Trata-se de uma das mais famosas “RT”, que tem presença assídua no caderninho de tácticas de qualquer mister do campeonato nacional.
Penso que será óbvio, mas nunca é de mais referir que as “RT” são um assunto off the record, e como tal trata-se de um anexo que só consta nos dossiers de estrategias dos treinadores que dão “mais algum” por debaixo da mesa…
Convém, por último, destacar que quando se diz quanto maior, melhor, não se está a referir única e exclusivamente à longitude vertical, mas também à dimensão horizontal. Jogadores como Brian Deane ou mesmo Elpídeo Silva, apesar de não serem especialmente altos (o caso de Silva é o mais flagrante…), compensavam por serem maiores para os lados do que para cima!



RATOEIRA TÁCTICA NÚMERO 4: O “EFEITO POSTE DE ELECTRICIDADE”

Inserir na táctica um grande avançado que leve os defesas atrás, qual poste d
e electricidade cheio de pombos. Isto dará o espaço necessário às penetrações dos companheiros de equipa.



Assim sendo, temos exemplos bestiais na nossa montra de prémios. Roberto Matute, o exemplo dado na introdução, é claramente uma “vítima” deste efeito. Mas muitos mais existem que merecem igualmente ser destacados. São uma classe em perigo de extinção, uns altruístas que importa preservar.



Vinha

O Empire State Building de Paranhos. Digno sucessor de grandes nomes nacionais, como José Águas, Ricky ou Rudi, Vinha era um jogador cujas estatísticas não conseguem revelar a importância que ele tinha na manobra ofensiva da equipa.
Com uma carreira construída no norte, maioritariamente no Vidal Pinheiro, com uma breve mas merecida passagem pelas Antas, o adelgaçado gi
gante, apesar de não denotar a velocidade nem a agilidade de alguns dos seus companheiros de sector, prendia os defesas e movimentava-se sem bola como poucos. Isto sem falar no seu temível jogo de cabeça, ideal para o sistema de jogo “guarda-redes – pivot (Vinha) – avançado concretizador”. No Salgueiros, quando o famoso contra-ataque não funcionava, esse sistema era explorado ao máximo com a tripla Pedro Espinha – Vinha – Toni, ou posteriormente Silvino – Vinha – Artur Jorge Vicente.


Jogador de uma inteligência acima da média, combinava com os outros astros da equipa a um nível transcendental. Glórias passadas e futuras do futebol nacional, como Miguel Simão, Semedo, Abílio, Schuster ou Tulipa foram alguns dos beneficiados por jogar ao lado deste mito dos relvados nacionais.
É, sem dúvida, uma referência do “Efeito Poste de Electricidade” em Portugal.


Skuhravy

Gigante e assustador, dirão uns, Oportunista e cínico, dirão outros. Tudo isso, dirão ainda outros, diferentes dos outros que disseram oportunista e cínico, pois também o acham gigante e assustador.
Melhor marcador do mundial de 90 pela extinta Checoslováquia, em igualdade com Salvatore Schillaci, o rapaz que um dia sonhou jogar a bola viu-se de repente catapultado para os holofotes da fama, numa transferência relâmpago para o calcio. Lá, onde o futebol é defensivo e os defesas são do mais viril que existe no mundo da bola, Tomas, ainda “verde”, não conseguiu impôr o seu futebol.
O Cattenaccio não lhe deu tréguas, e apesar de lhe ser reconhecido valor, nunca conseguiu dar o salto para um grande da Série A. O melhor que fez foram 12 golos em 1994, ao serviço do Génova. Pela selecção, 49 jogos e 17 golos.
Aquele que poderia ter sido o intérprete de um fabuloso “Efeito Poste de Electricidade”, tentou a sua sorte em Portugal, pelo Sporting, onde novamente não teve sorte, apesar de ter batido alguns recordes nos testes físicos. Um remate à trave no Municipal de Chaves foi o porta-estandarte duma efémera passagem por terras lusas.
Com 1,91 metros e 88 quilos, teve o pássaro na mão, mas acabou por esmigalhá-lo.


Miguel Barros

Com 1,92 metros, foi um grande intérprete em potência desta “RT”. No entanto, a potência de nada serve sem a colocação.
Começou jovem, muito jovem, ao serviço dum Salgueiros que contava com grandes nomes como os jugoslavos Milovac e Nikolic, como Rui França e como os mitos vivos de Vidal Pinheiro que foram Madureira e Pedro Reis. Apesar de não ter sido muito utilizado, aprendeu.
As épocas seguintes, aquelas que podiam ter sido as da sua confirmação, não o foram. Salgueiros, Beira-Mar e Leça foram os clubes da 1ª divisão que tiveram Miguel Barros nas fileiras, sem no entanto desfrutarem do talento do altaneiro avançado.
Quem aproveitou foi o Maia, e na 2ª divisão Miguel viveu as suas melhores épocas: 9 golos em 97 e 12 em 98. No entanto, não lhe voltaram a chamar ao principal escalão e, triste, afogou-se nas divisões secundárias.


Birame

Trata-se de um jogador feito para ser usado nesta táctica. Não tinha jeito de pés, logo a sua maior utilidade era servir de grande tsunami, arrastando consigo os defesas contrários.
Tristemente para o nosso futebol em geral, e para jogador e clube em particular, Birame chegou, viu e viu mais um pouco.
Com 190 centímetros por 90 quilos, o senegalês tinha tudo para ser feliz. Era um caso evidente de dois “RT” num único atleta. Por um lado, tinha um físico óptimo para o “efeito poste de electricidade”. Por outro lado, o seu nome era agradavelmente ameaçador do ponto de vista futebolístico: Mame Birame Magave. Se os adversários não ficassem assustados com a sua envergadura, podia-se sempre afirmar que era um exímio praticante de voodoo. Com um nome desses, ninguém se atreveria a desconfiar dos poderes de Dr. Magave, especialista em todos os fenómenos ocultos que dá garantia de sucesso onde todos os outros médiuns falham.
Quiçá para a próxima, com um gestor de imagem como eu, Birame tenha melhor sorte.


Paulo Alves

Porventura o mais bem sucedido de todos os “postes de electricidade”, Paulo Alves teve uma carreira recheada de êxitos, coroada com chamadas assíduas à selecção nacional, onde marcou 7 golos em 13 internacionalizações. Apesar de desengonçado, era um jogador poderoso que absorvia a sua quota-parte de defesas, e ainda lhe sobrava tempo para fazer o gosto ao pé por diversas vezes.
Começou no Gil Vicente, mas foi no Marítimo que se destacou, formando uma dupla que denotava uma enorme cumplicidade, com Alex Bunbury. Disputado pelos dois grandes, acabou por ingressar no Sporting. Passadas três épocas, a aventura no estrangeiro, no Bastia, para regressar um ano depois a Portugal, para Leiria. Acabou por voltar a casa, onde joga, no Gil Vicente.

Trata-se de um avançado que, em condições normais, e dados os minutos de jogo, não só exerce de maneira soberba a “RT”, como também assegura uma dezena de golos por época.
Anos mais tarde, na época 99/00, houve uma dupla que ainda chegou aos calcanhares de Alex e Alves, e ao estatuto de heróis da região autónoma da Madeira. Foram eles Toedtli e Sumudica, que eram municiados por Bruno, em vez de Vado.


Brian Deane

Quando o Benfica o foi buscar ao Sheffield United, clube que alinhava na Division One * inglesa, cedo ecoaram gargalhadas em redor do novo reforço. Comentários como “epá… se a qualidade se contar ao quilo, é com certeza bom jogador”, ou “dá sempre jeito ter meninos desses para fazerem a barreira”.
Cegos, futebolisticamente incultos, não souberam reconhecer a “RT” que Souness queria aplicar ao “seu” glorioso.
Com uma capacidade física a fazer lembrar a cordilheira dos Alpes (não que fosse corcunda ou tivesse bossas como os camelos, mas simplesmente por ser brutalmente grande), Brian apresentava-se à massa associativa com apenas 184 centímetros que, no entanto, estavam bem condimentados pelos seus 87 quilos.
Serviu de “poste de electricidade” para as entradas dos dois avançados móveis, João Pinto e Nuno Gomes, e ainda deu dinheiro a ganhar ao clube, que o vendeu posteriormente ao Middlesbrough.


*divisão equivalente à nossa Liga de Honra.

Separados Quase à Nascença

Não é apenas em telenovelas que os gémeos são obrigados, dramaticamente, a tomar percursos distintos.
Já que entrámos no assunto, pergunto-me se por acaso houvesse um gémeo siamês a jogar futebol, será que contaria como um ou dois jogadores? Partindo do princípio que falamos de um siamês “comum”, ele terá duas cabeças e dois troncos, logo pensará como dois jogadores. Por outro lado, tem apenas duas pernas, como qualquer outro jogador… deixo o pensamento a pairar.

Também no futebol acontecem autênticos dramas familiares, com cada mano a ser obrigado a assinar por um clube diferente. Normalmente, fazem a formação no mesmo clube e, curiosamente, sempre no mesmo escalão. Depois podem passar por um ou outro clube juntos mas, mais cedo ou mais tarde, o destino acaba por vencer e o irmão mais talentoso acaba por subir na carreira, enquanto o outro fica, rancoroso, a preparar uma terrível vingança que irá ter lugar na ceia de jantar da família. Sim, há sempre um melhor que o outro… a vida é dura, pelo menos para um deles.
Outro aspecto curioso nos gémeos é que são raras as ocasiões em que formam, por exemplo, uma dupla de atacantes, ou de centrais, ou mesmo uma dupla de guarda-redes. Normalmente, um joga mais a frente do que o outro, tal como quando nasceram. Com certeza que não saíram do ventre da mãe lado a lado… Pergunto-me agora se por acaso os gémeos, à nascença, também têm aquelas cenas de cerimónia sobre qual irá passar primeiro pelo espaço apertado: “mano, faça favor!”, “não seja infantil, passe você!”.

O caso mais conhecido é o dos irmãos De Boer. E para aqueles que julgavam que o irmão mais talentoso era o que contemplava o público com mais rodriguinhos, estão redondamente enganados! Neste caso, como em diversos outros, o irmão que jogava a central, Frank, era um excelente jogador, enquanto que o seu mano, Ronald, era um avançado que, apesar de talentoso, ficava aquém do seu gémeo.

Passando, como sempre, do internacional para o nacional, apresento o caso dos gémeos com o melhor nome para gémeos de sempre: Zé-Tó e Tó-Zé.
Nascidos em Angola, fizeram-se jogadores nas escolas do Setúbal. Para a subida a sénior estava guardado o maior desafio à sua irmandade, pois foi nessa altura que se deu o grande cisma da família Ramos, para grande tristeza da mãe deles. Perdoem-me se não consegui transpôr para o papel todo (ou algum) o drama que acompanhou esta separação, mas vão poder vibrar com estes manos quando a sua história sair em dvd. Ou talvez não. Interessa?

Uma Questão de Confiança

No desporto rei, como em tudo na vida, a confiança é uma das mais importantes bases do sucesso. Obviamente que se um jogador não tiver jeito, pode ter muita confiança mas mesmo assim não será convocado pelo mister para o jogo de domingo à tarde. No entanto, o mesmo poderá acontecer a um grande jogador, se não tiver a confiança em alta.
Um baixo nível de confiança pode estar ligado a problemas pessoais ou de adaptação, falta de apoio do treinador, dores de barriga/cólicas, ou mesmo problemas no pagamento das prestações do zeppelin.
Um caso que salta à vista é o de Juan Roman Riquelme, astro argentino. No Boca Juniors, sob o comando de Carlos Bianchi, treinador que o idolatrava, Riquelme era um génio, a referência da equipa e um jogador que desequilibrava as partidas. Transferiu-se para Barcelona, onde encontrou uma realidade bem mais dura. O sisudo e geométrico Van Gaal cedo disse não precisar do jogador – primeiro aroma de falta de apoio -, o que juntamente com as inerentes dificuldades de adaptação a um novo continente, fez com que o nº10 proveniente das pampas fosse engolido por uma maré negra de falta de confiança. Na cidade condal nada fez, tendo sido emprestado posteriormente ao Villarreal.
Trata-se apenas de um exemplo de uma situação muito usual no futebol. Passando para o panorama nacional, podemos destacar algumas situações.


Andrejz Juskowiak

Avançado polaco melhor marcador dos jogos olímpicos de 1992, Jusko, como era carinhosamente apelidado, teve uma primeira época de difícil adaptação. No entanto, a segunda época começou de feição para o espadaúdo loiro. 10 golos nas 16 primeiras jornadas agoiravam uma época em grande para o ponta de lança. Fazendo uma regra de três simples, se em 16 jogos marca 10 golos, em 34 jogos marcaria 21 golos, suficientes para igualar Hassan no topo da lista de melhores marcadores, superando um Domingos Paciência em auge de carreira e a revelação do Tirsense, Marcelo.
Mas o futebol de ciência exacta pouco tem, e a mente humana é algo de obscuro e imprevisível, especialmente quando não se encontra medicada. Rezam as crónicas que Carlos Queiroz não tinha as qualidades humanas que eu exigi ainda há pouco, por ocasião do “anti efeito-sombra”. Nem a «vantagem de ter duas pernas», como certo dia um comentador verificou muito acertadamente, valeu a Juskowiak a redenção perante aquele que veio a treinar o Real Madrid.
Beneficiou o campeonato alemão, que passou a contar com um extraordinário ponta-de-lança.


Vítor Vieira

Grande promessa belenense, Vítor começou a época de 94/95 em grande nível, quer jogando como titular quer entrando já no decorrer da partida para invariavelmente injectar nova dinâmica ao seu flanco. Tudo isto nas seis primeiras jornadas, tendo voltado à equipa na 10ª e 11ª jornada, antes de ser descurado por completo pelo mister da altura, o luvas negras João Alves.
Será pelo Belenenses da altura possuír um plantel recheado de grandes valores para o lado direito, caso de Tulipa, M’Jid ou Zoran Ban? Ou será descriminação pela provável cena de peidos a caminho de Guimarães?* João Alves não teve a humanidade para ver que se tratava de um jovem de apenas 22 anos, e não soube extrair o néctar de uma fruta futebolística com uma doçura acima da média. Perdeu ele e o clube, enquanto “o nómada” foi fazer furor por outros clubes durante as épocas que se seguiram.

*Alusão a um provável acontecimento explicado no post dos Saltimbancos. Para mais, consultar o mesmo.