Sunday, May 20, 2007

Apresentações? Não, Obrigado!

Nem tudo é estranho e circense no futebol nacional, diz o homem-bala. Pérolas. 99% das vezes o mister corta-se e perde o polegar ao tentar abrir a ostra. 1% das vezes aparece uma esfera tão reluzente quanto o cucuruto de Caccioli. Falo daqueles jogadores fabulosos, que por uma razão ou por outra, ou ainda por outra, nunca chegaram a vestir a camisola de um clube grande, mas que no entanto são sobejamente conhecidos e não necessitam de apresentações. Excepto Miranda, esse fantasista que chegou a equipar de águia ao peito, mas por breves e saudosos momentos. Para ele.

Quero então destacar alguns desses mitos do nosso futebol, como que dizendo: “Sim senhor, eu vi-te, nós vimos-te, todos te viram. Menos os olheiros dos grandes… pensa assim: pelo menos foste titular no Beira-Mar, algo que nem o grande Piguita conseguiu!”

Caccioli

Nos relvados nacionais, o nome Milton Caccioli é sinónimo de magia. Não de ilusionismo, de magia. Possuidor de uma visão de jogo global aliada a um Q.I. futebolístico digno de um predestinado, tudo condimentado com uma pitada da típica irreverência do futebol brasileiro, fizeram do número 10 um dos maiores estrategas dos relvados nacionais da década de 90.
Os seus passes de morte, juntamente com o seu remate de longa distância que tinha tanto de espontâneo quanto de venenoso, faziam de Caccioli uma ameaça constante. Quem não se lembra dos extraordinários golos que Milton marcava através de potentes remates do meio da rua?
Tendo jogado também em Braga (inicialmente) e em Faro (posteriormente), foi em Barcelos que “abriu o livro”. Nas épocas em que serviu o Gil Vicente, o “careca”, como era amistosamente apelidado, tornou-se num elemento imprescindível para a estratégia do mister. Pode-se mesmo afirmar que toda a estratégia dos “galos” rodava em torno do playmaker brasileiro.

Em homenagem ao jogador que foi e ao que contribuiu para o desenvolvimento do nosso futebol, decidi alterar as líricas letras da cantiga de intervenção de Paulo de Carvalho, de “os meninos à volta da fogueira” para “os galos à volta de Caccioli”. O nome adapta-se bem à antiga táctica gilista, e será para sempre recordado como a Ode a Caccioli.


Vado

Provavelmente o único jogador que, sem ter vestido a camisola de um dos grandes do nosso futebol, chegou a ser o número 10 da equipa das quinas. Esse foi certamente o ponto mais altivo de uma grande carreira, teve lugar no torneio indoor de Toronto, em 1995.
Osvaldo começou a carreira em Portimão, tendo mesmo atingido a sua primeira internacionalização em 1989, numa derrota por 4-0 contra o Brasil. Vou arriscar aqui ao dizer isto, mas é capaz de não ter agradado ao seleccionador, dado que só voltaria a ser convocado para o torneio atrás referido.
Transferiu-se para o Marítimo, onde municiou exemplarmente aquela grande dupla constituída por Paulo Alves e Alex Bunbury. Tal como Caccioli, também Vado era o motor da equipa. Ele fazia funcionar a táctica de Autuori, comandando um meio campo que contava também com Zeca e Luís Gustavo.
Pelo estado do seu cabelo, despenteado e maltratado, posso aqui certamente concluir que foi um bom intérprete do “efeito-microfone” . Ou talvez seja só das violentas rajadas de vento que assolavam os Barreiros.
Depois de muitos anos na Madeira, seguiu para Braga. No entanto o estádio 1º de Maio, mais resguardado das ventosidades, não permitiu que o cabelo e o futebol de Vado continuasse rebelde e imprevisível.
Apesar de possuir um traquejo físico aquém de pouco impressionante (contava com uns meros 167 centímetros), o fantasista, natural de Angola, tinha dentro de si uma dose inata de talento que fez dele um dos mais virtuosos médios ofensivos do nosso campeonato.


Miranda

O que há a dizer sobre Miranda, senão o facto da quantidade de cabelo estar inversamente relacionada ao talento futebolístico. Nascido e criado no clube da Póvoa, era um polivalente médio que fez história no principal escalão nacional.
Após 5 épocas ao serviço do Varzim, o salto. Abriram-se-lhe as portas da Luz, só que Miranda ficou encadeado. Seguiram-se outras 5 épocas que lhe deram a fama não só de extraordinário líder a partir do centro do terreno, mas também de um dos maiores saltimbancos do nosso futebol. Chaves, Estrela, Beira-Mar, Paços e Espinho foram as paragens seguintes, até regressar a casa, ao Varzim.
Em 90/91, vestido com as cores do Estrela da Amadora, teve aquela que foi a sua melhor época na 1ª divisão: 37 jogos e 7 golos. Contracenou em grandes palcos do nosso futebol com magos do passado como Álvaro “6 dedos” Magalhães ou Ricky, e com promessas futuras como Dimas, Abel Xavier e Paulo Bento. Com este último e com o eterno capitão Rebelo (nessa altura subido no relvado a jogar a trinco) chegou mesmo a formar um fabuloso tridente no miolo do terreno.

Nogueira

Se o arquétipo de defesa central do futebol português é um central alto e forte, impiedoso na marcação e com um sentido posicional acima da média, então Nogueira não se enquadra no modelo.
Internacional português por 7 ocasiões (entre 91 e 94, tendo marcado 2 golos), era um verdadeiro especialista em entradas “à queima”, daí a razão para a sua barba, capaz de acender qualquer fósforo.
Como seria de esperar para um futebolista com 1,90 metros, Nogueira era algo duro de rins. Compensava, no entanto, com um impecável jogo aéreo. Rezam as crónicas que era, também, um jogador de uma disciplina táctica exímia.
Juntamente com Pedro Barny, e ladeados por Paulo Sousa e Caetano, defenderam sempre acerrimamente a baliza à guarda do gadelhudo Alfredo. Transmitiu toda a sua sabedoria a Rui Bento, seu pupilo e sucessor na defensiva axadrezada.

Uma Dupla de 3 Centrais

Trata-se de uma expressão que certamente não será virgem na mente de muitos adeptos de futebol. “Epá isso foi uma bácora de um comentador!”, dirão muitas pessoas… nada mais afastado do meridiano da veracidade! Os comentadores não dizem bácoras, largam sim comentários cuja total captação está ao alcance de um restrito grupo de predestinados.

Usualmente, uma dupla de três centrais é formada por dois bons defesas e um mau defesa. Assim sendo, os bons defesas têm que ter atenção não só aos avançados contrários, mas também às constantes “casas” do defesa menos bom.
A mais famosa dessas duplas foi formada por três defesas benfiquistas: Hélder, Bermudez e Tahar. Enquanto que Hélder tinha indicações específicas para não largar o ponta-de-lança adversário, a missão de Tahar era marcar em cima Bermudez.
Mas Bermudez pouco ou nada deu ao futebol nacional, logo a importância que lhe vou dar será proporcional.

Pelo contrário, o central canarinho Eliseu também fez parte de uma dessas “duplas”. No Beira-Mar da época 94/95, havia um defesa que não dava descanso aos seus companheiros de sector. O seu nome? Piguita! O técnico do Beira-Mar, inclusive, teve que implementar uma estratégia de rotatividade aos outros centrais de modo a conseguirem acompanhar o cabo-verdiano. Passando a apresentar os outros centrais:

Eliseu era um central poderosíssimo, que com 1,91 metros, era um rei no ar. Fez-se jogador no Beira-Mar, tendo depois jogado em Setúbal e acabado a carreira na China, onde foi treinado por Toni.
Dinis era igualmente possante. Barbudo e alto (1,92 m), não dava tréguas aos atacantes adversários e era também ele intransponível no jogo aéreo. Reza a lenda que certa jornada Chiquinho Conde chegou a ser dado como desaparecido por entre a espessa barba de Dinis.
Por último surge o delfim Hugo Costa, uma eterna promessa do futebol nacional que, como é apanágio das mesmas, tem tantas hipóteses de atingir o seu potencial como a fénix de chegar à terceira idade.
Questiono-me agora porque terá a equipa de Aveiro usado “uma dupla de três centrais”, tendo três centrais perfeitamente decentes no banco… É por estas e por outras que os clubes acabam por descer de divisão. E a escolha da expressão “por outras” não é apenas um modo de falar, mas sim algo bastante específico, como entregar as missões ofensivas a Tarcísio, avançado brasileiro que tinha apenas 1,68 metros e nenhuma prova dada nos nossos relvados, a um Pitico em final de carreira e a um Toni que tardava a afirmar-se (tardou, tardou, tardou, até que teve de se ir deitar porque amanhã era dia de escola).

Thursday, April 12, 2007

Factos e Figuras: Onde Está Chiquinho Conde?

Quem não se lembra, com nostalgia, de ficar horas a fio à procura de Wally num livro repleto de ilustrações tão coloridas quanto lotadas.
É nesse mesmo estado de confusão e perseguição que Chiquinho deixava os adversários. Não por usar um boné encarnado e branco e se esconder no meio de milhares de pessoas que não conhece de lado nenhum. Wally integrava-se igualmente bem quer num mundo cheio de Vampiros, quer num mundo de painéis solares. Chiquinho nem tanto. Fora de Setúbal, um avançado pequeno e algo vulgar. À beira Sado, um portento, uma ameaça constante, um jogador que apresentava sempre um brilho nos olhos e aguardava pacientemente pela oportunidade de fazer o gosto ao pé. Ao serviço do Vitória fez as suas duas melhores épocas: em 1993, jogou por 30 ocasiões, tendo marcado por 15 vezes; mais tarde voltou ao clube, a tempo de disputar 28 jogos e marcar 14 golos, decorria o ano de 1998. Contabilizou também 35 internacionalizações por Moçambique.
Voltando ao estado lastimável em que deixava os adversários, isto ocorria devido à sua reduzida dimensão física (1,71 metros) que o tornava difícil de detectar, e à sua fabulosa rapidez. Assim sendo, os defesas adversários, quando finalmente viam Conde, muitas vezes era já demasiado tarde e a bola já havia encontrado o fundo das redes.
Um dos melhores e mais carismáticos avançados que jogaram no nosso campeonato na década de 90. Na memória fica o fabuloso tridente atacante que formou com Yekini e Chiquinho Carlos, e o coroar de uma grande carreira com a transferência para Alvalade.

"Nasci com 40 anos"

Há jogadores que, no início da carreira, com meros 19 anos, já têm cara de capitão e elemento mais antigo do plantel. Quer pela expressão facial, quer por falta de cabelo ou dentes, saem dos juniores para o plantel principal e já têm uma série de jogadores a pedirem-lhes dicas e conselhos baseados na sua inexistente mas aparente vasta experiência.
O caso mais pragmático será, como toda a gente estará à espera, o de Wilson, central do Belenenses e de Angola.


RATOEIRA TÁCTICA NÚMERO 5: O “EFEITO NASCI COM 40 ANOS”

Baseia-se na máxima “respeitinho é bonito e eu gosto”. O jogador, parecendo de uma geração diferente, receberá um tratamento mais cordial e cerimonioso, do qual se aproveitará para melhorar as suas prestações em campo.



Wilson

Existem 5 ingredientes-base para tirar partido desta “RT” ao máximo. Wilson, como maior expoente do “Efeito nasci com 40 anos”, contém na sua figura esses 5 elementos:

1. O ar cansado (provavelmente de estar farto de ouvir a dupla romântica Roberto Carlos e Néné Santarém, seus companheiros em Barcelos);

2. O cabelo pouco cuidado (o que não tem grande justificação, pois esteve no mesmo clube que Lim, o rei do gel);

3. A barba de três dias;

4. O caminhar algo corcundesco*;

5. O ar cansado (só para dar mais ênfase ao cansaço, que nunca é demais).

Há ainda um ingrediente (melhor dizendo, talvez será uma condição) extra, que é o facto de o jogador não poder ser verdadeiramente velho. Isto simplesmente porque um velho com ar de velho não vai conseguir tirar partido das suas jovens condições físicas para ganhar vantagem sobre o adversário, dado que não tem jovens condições físicas.
Agora se falarmos de um velho com acesso ao poço da juventude, esse sim pode usar esta “RT”, desde que se continue a aparentar como um velhote, apesar de possuir as condições físicas de um jovem.

*andar típico de um sujeito com uma corcunda, ou algo marreta.


Voltando ao jogador, tudo isto pode prejudicá-lo esteticamente. No entanto quem ri por último ri melhor, e quem olhar para os números da carreira de Wilson verá que estamos perante um autêntico génio das “RT”.
Começou como médio no Gil Vicente, em 1994, mas foi quando se transferiu para Belém, em 1999, que se tornou num dos melhores e mais sóbrios centrais do futebol português. Com mais de 200 jogos no principal escalão, formou uma grande dupla de centrais com Filgueira (o estrangeiro recordista de jogos na 1ª divisão, mais de 400).
O internacional angolano será, certamente, dos melhores centrais dos últimos anos em Portugal. Poderia ter voado bem mais alto se não tivesse passado tantas épocas nos escalões secundários. Por outro ângulo, também é verdade que se tivesse voado mais alto, tinha apanhado com mais vento na cabeça e teria ficado careca mais cedo, o que, de acordo com a premissas anteriores, apenas o ajudaria, pelo que prova o contrário do intuito com que esta frase foi aqui colocada.


Manuel Correia

Sempre tive uma dúvida… Se o diminutivo de Manuel é Manel, então porque não diminuir também o nome de Emanuel para Emanel?
Isto para apresentar o próximo quarentão, Manuel Correia, o eterno líder da defesa flaviense. Caso raro de lealdade no futebol nacional, contudo com uma evidente explicação: Os clubes gostam de comprar jovens. Não se vê muitos clubes a investir em jogadores de 32 anos. Ora Manuel, aos 25 anos, já se assemelhava com um veterano de 33, que era a idade que transparecia para os potenciais interessados. Conclusão desnecessária por ser mais que óbvia: ninguém o tentava comprar.
Sorte para o Chaves que contou durante épocas a fio com um sólido central, sóbrio e eficaz, e que ensinou a escola toda ao seu sucessor no eixo da defensiva transmontana, Paulo Alexandre.


André

Escolhi André como podia muito bem ter escolhido Jaime Magalhães, Semedo ou Bandeirinha. Falo daquela famosa equipa do Porto que parecia saída do campeonato da 3ª idade, tantos eram os carecas em campo. No entanto, André compensava a falta de cabelo com enorme garra, imagem de marca das equipas nortenhas.
Eram todos jogadores de imensa tradição no Porto, ou não tivessem equipado de azul e branco durante toda uma década. O que nos diz isto? Que as Antas provocam queda de cabelo. Felizmente que outros valores como Kostadinov e Fernando Couto, com as suas grandes cabeleiras, saíram a tempo do clube. Basta ver o que acabou por suceder a Jorge Costa.


Cao

O caso do cabo-verdiano é diferente dos outros. Rezam as crónicas que Cao não aparentava ser mais velho, ele era mesmo mais velho. O quê? Pergunta o leitor.
Para melhor explicar, trago de volta à memória o caso de Gil, membro da geração de ouro de Carlos Queiroz, juntamente com Figo, Rui Costa e João Pinto. Apesar de ter apenas 21 anos no papel, dizia-se que tinha, na realidade, mais alguns aninhos nas pernas. Isso explica o facto de ter acabado a carreira bem mais cedo.
Mas porque é que isto acontece? Como moram longe dos registos civis, as famílias em África aproveitam e vão registar os filhos logo todos de uma vez, de modo a poupar na viagem. Assim sendo, é comum aparecer um rapaz de 10 anos no registo a dizer: “nasci!”.
Agora que isto está explicado, voltamos a Cao. Também ele foi campeão mundial de sub-20 em 1991. No entanto, esse foi o auge da sua carreira, tendo posteriormente passado por clubes como o Leça, Salgueiros, ou Campomaiorense.
Podem achar que isto é batotice mas, para além da vossa opinião pouco interessar aos intervenientes, trata-se de uma faca de dois gumes. Está certo que têm a vantagem de estarem mais desenvolvidos fisicamente nos escalões de formação, mas por outro lado acabam por jogar menos épocas a sénior, altura em que se ganha o dinheiro a sério.
Actualmente tem-se a mesma dúvida com o avançado do Benfica Pedro Mantorras e com o trinco Ednilson, mas isso agora não interessa a ninguém, e aproveito para desejar as melhoras ao avançado, apelando para que não voltem a fazer uma grande jantarada com todo o plantel encarnado, deixando-o de fora…

O 1 em 4x5x1

No futebol português é apanágio usar-se apenas um ponta de lança. É quase como que uma lei instituída na mentalidade dos treinadores. Mas a lógica prossegue. Outra lei instituída na nossa sociedade é a máxima quanto mais, melhor! Junta-se as duas e tem-se o corolário do ponta-de-lança em Portugal:


Corolário do ponta-de-lança em Portugal:

«Já que só posso utilizar um ponta de lança, quanto maior, melhor.»



E esta é a base ideológica do efeito poste-de-electricidade, que conheceu o seu apogeu na figura de José Torres e, mais recentemente, no gigante checo Jan Koller. Só que nem sempre se arranja um jogador móvel e com bons pés, de dois metros de altura. E os treinadores, quais músicos de jazz, improvisam! Trata-se de uma das mais famosas “RT”, que tem presença assídua no caderninho de tácticas de qualquer mister do campeonato nacional.
Penso que será óbvio, mas nunca é de mais referir que as “RT” são um assunto off the record, e como tal trata-se de um anexo que só consta nos dossiers de estrategias dos treinadores que dão “mais algum” por debaixo da mesa…
Convém, por último, destacar que quando se diz quanto maior, melhor, não se está a referir única e exclusivamente à longitude vertical, mas também à dimensão horizontal. Jogadores como Brian Deane ou mesmo Elpídeo Silva, apesar de não serem especialmente altos (o caso de Silva é o mais flagrante…), compensavam por serem maiores para os lados do que para cima!



RATOEIRA TÁCTICA NÚMERO 4: O “EFEITO POSTE DE ELECTRICIDADE”

Inserir na táctica um grande avançado que leve os defesas atrás, qual poste d
e electricidade cheio de pombos. Isto dará o espaço necessário às penetrações dos companheiros de equipa.



Assim sendo, temos exemplos bestiais na nossa montra de prémios. Roberto Matute, o exemplo dado na introdução, é claramente uma “vítima” deste efeito. Mas muitos mais existem que merecem igualmente ser destacados. São uma classe em perigo de extinção, uns altruístas que importa preservar.



Vinha

O Empire State Building de Paranhos. Digno sucessor de grandes nomes nacionais, como José Águas, Ricky ou Rudi, Vinha era um jogador cujas estatísticas não conseguem revelar a importância que ele tinha na manobra ofensiva da equipa.
Com uma carreira construída no norte, maioritariamente no Vidal Pinheiro, com uma breve mas merecida passagem pelas Antas, o adelgaçado gi
gante, apesar de não denotar a velocidade nem a agilidade de alguns dos seus companheiros de sector, prendia os defesas e movimentava-se sem bola como poucos. Isto sem falar no seu temível jogo de cabeça, ideal para o sistema de jogo “guarda-redes – pivot (Vinha) – avançado concretizador”. No Salgueiros, quando o famoso contra-ataque não funcionava, esse sistema era explorado ao máximo com a tripla Pedro Espinha – Vinha – Toni, ou posteriormente Silvino – Vinha – Artur Jorge Vicente.


Jogador de uma inteligência acima da média, combinava com os outros astros da equipa a um nível transcendental. Glórias passadas e futuras do futebol nacional, como Miguel Simão, Semedo, Abílio, Schuster ou Tulipa foram alguns dos beneficiados por jogar ao lado deste mito dos relvados nacionais.
É, sem dúvida, uma referência do “Efeito Poste de Electricidade” em Portugal.


Skuhravy

Gigante e assustador, dirão uns, Oportunista e cínico, dirão outros. Tudo isso, dirão ainda outros, diferentes dos outros que disseram oportunista e cínico, pois também o acham gigante e assustador.
Melhor marcador do mundial de 90 pela extinta Checoslováquia, em igualdade com Salvatore Schillaci, o rapaz que um dia sonhou jogar a bola viu-se de repente catapultado para os holofotes da fama, numa transferência relâmpago para o calcio. Lá, onde o futebol é defensivo e os defesas são do mais viril que existe no mundo da bola, Tomas, ainda “verde”, não conseguiu impôr o seu futebol.
O Cattenaccio não lhe deu tréguas, e apesar de lhe ser reconhecido valor, nunca conseguiu dar o salto para um grande da Série A. O melhor que fez foram 12 golos em 1994, ao serviço do Génova. Pela selecção, 49 jogos e 17 golos.
Aquele que poderia ter sido o intérprete de um fabuloso “Efeito Poste de Electricidade”, tentou a sua sorte em Portugal, pelo Sporting, onde novamente não teve sorte, apesar de ter batido alguns recordes nos testes físicos. Um remate à trave no Municipal de Chaves foi o porta-estandarte duma efémera passagem por terras lusas.
Com 1,91 metros e 88 quilos, teve o pássaro na mão, mas acabou por esmigalhá-lo.


Miguel Barros

Com 1,92 metros, foi um grande intérprete em potência desta “RT”. No entanto, a potência de nada serve sem a colocação.
Começou jovem, muito jovem, ao serviço dum Salgueiros que contava com grandes nomes como os jugoslavos Milovac e Nikolic, como Rui França e como os mitos vivos de Vidal Pinheiro que foram Madureira e Pedro Reis. Apesar de não ter sido muito utilizado, aprendeu.
As épocas seguintes, aquelas que podiam ter sido as da sua confirmação, não o foram. Salgueiros, Beira-Mar e Leça foram os clubes da 1ª divisão que tiveram Miguel Barros nas fileiras, sem no entanto desfrutarem do talento do altaneiro avançado.
Quem aproveitou foi o Maia, e na 2ª divisão Miguel viveu as suas melhores épocas: 9 golos em 97 e 12 em 98. No entanto, não lhe voltaram a chamar ao principal escalão e, triste, afogou-se nas divisões secundárias.


Birame

Trata-se de um jogador feito para ser usado nesta táctica. Não tinha jeito de pés, logo a sua maior utilidade era servir de grande tsunami, arrastando consigo os defesas contrários.
Tristemente para o nosso futebol em geral, e para jogador e clube em particular, Birame chegou, viu e viu mais um pouco.
Com 190 centímetros por 90 quilos, o senegalês tinha tudo para ser feliz. Era um caso evidente de dois “RT” num único atleta. Por um lado, tinha um físico óptimo para o “efeito poste de electricidade”. Por outro lado, o seu nome era agradavelmente ameaçador do ponto de vista futebolístico: Mame Birame Magave. Se os adversários não ficassem assustados com a sua envergadura, podia-se sempre afirmar que era um exímio praticante de voodoo. Com um nome desses, ninguém se atreveria a desconfiar dos poderes de Dr. Magave, especialista em todos os fenómenos ocultos que dá garantia de sucesso onde todos os outros médiuns falham.
Quiçá para a próxima, com um gestor de imagem como eu, Birame tenha melhor sorte.


Paulo Alves

Porventura o mais bem sucedido de todos os “postes de electricidade”, Paulo Alves teve uma carreira recheada de êxitos, coroada com chamadas assíduas à selecção nacional, onde marcou 7 golos em 13 internacionalizações. Apesar de desengonçado, era um jogador poderoso que absorvia a sua quota-parte de defesas, e ainda lhe sobrava tempo para fazer o gosto ao pé por diversas vezes.
Começou no Gil Vicente, mas foi no Marítimo que se destacou, formando uma dupla que denotava uma enorme cumplicidade, com Alex Bunbury. Disputado pelos dois grandes, acabou por ingressar no Sporting. Passadas três épocas, a aventura no estrangeiro, no Bastia, para regressar um ano depois a Portugal, para Leiria. Acabou por voltar a casa, onde joga, no Gil Vicente.

Trata-se de um avançado que, em condições normais, e dados os minutos de jogo, não só exerce de maneira soberba a “RT”, como também assegura uma dezena de golos por época.
Anos mais tarde, na época 99/00, houve uma dupla que ainda chegou aos calcanhares de Alex e Alves, e ao estatuto de heróis da região autónoma da Madeira. Foram eles Toedtli e Sumudica, que eram municiados por Bruno, em vez de Vado.


Brian Deane

Quando o Benfica o foi buscar ao Sheffield United, clube que alinhava na Division One * inglesa, cedo ecoaram gargalhadas em redor do novo reforço. Comentários como “epá… se a qualidade se contar ao quilo, é com certeza bom jogador”, ou “dá sempre jeito ter meninos desses para fazerem a barreira”.
Cegos, futebolisticamente incultos, não souberam reconhecer a “RT” que Souness queria aplicar ao “seu” glorioso.
Com uma capacidade física a fazer lembrar a cordilheira dos Alpes (não que fosse corcunda ou tivesse bossas como os camelos, mas simplesmente por ser brutalmente grande), Brian apresentava-se à massa associativa com apenas 184 centímetros que, no entanto, estavam bem condimentados pelos seus 87 quilos.
Serviu de “poste de electricidade” para as entradas dos dois avançados móveis, João Pinto e Nuno Gomes, e ainda deu dinheiro a ganhar ao clube, que o vendeu posteriormente ao Middlesbrough.


*divisão equivalente à nossa Liga de Honra.