Thursday, April 12, 2007

O 1 em 4x5x1

No futebol português é apanágio usar-se apenas um ponta de lança. É quase como que uma lei instituída na mentalidade dos treinadores. Mas a lógica prossegue. Outra lei instituída na nossa sociedade é a máxima quanto mais, melhor! Junta-se as duas e tem-se o corolário do ponta-de-lança em Portugal:


Corolário do ponta-de-lança em Portugal:

«Já que só posso utilizar um ponta de lança, quanto maior, melhor.»



E esta é a base ideológica do efeito poste-de-electricidade, que conheceu o seu apogeu na figura de José Torres e, mais recentemente, no gigante checo Jan Koller. Só que nem sempre se arranja um jogador móvel e com bons pés, de dois metros de altura. E os treinadores, quais músicos de jazz, improvisam! Trata-se de uma das mais famosas “RT”, que tem presença assídua no caderninho de tácticas de qualquer mister do campeonato nacional.
Penso que será óbvio, mas nunca é de mais referir que as “RT” são um assunto off the record, e como tal trata-se de um anexo que só consta nos dossiers de estrategias dos treinadores que dão “mais algum” por debaixo da mesa…
Convém, por último, destacar que quando se diz quanto maior, melhor, não se está a referir única e exclusivamente à longitude vertical, mas também à dimensão horizontal. Jogadores como Brian Deane ou mesmo Elpídeo Silva, apesar de não serem especialmente altos (o caso de Silva é o mais flagrante…), compensavam por serem maiores para os lados do que para cima!



RATOEIRA TÁCTICA NÚMERO 4: O “EFEITO POSTE DE ELECTRICIDADE”

Inserir na táctica um grande avançado que leve os defesas atrás, qual poste d
e electricidade cheio de pombos. Isto dará o espaço necessário às penetrações dos companheiros de equipa.



Assim sendo, temos exemplos bestiais na nossa montra de prémios. Roberto Matute, o exemplo dado na introdução, é claramente uma “vítima” deste efeito. Mas muitos mais existem que merecem igualmente ser destacados. São uma classe em perigo de extinção, uns altruístas que importa preservar.



Vinha

O Empire State Building de Paranhos. Digno sucessor de grandes nomes nacionais, como José Águas, Ricky ou Rudi, Vinha era um jogador cujas estatísticas não conseguem revelar a importância que ele tinha na manobra ofensiva da equipa.
Com uma carreira construída no norte, maioritariamente no Vidal Pinheiro, com uma breve mas merecida passagem pelas Antas, o adelgaçado gi
gante, apesar de não denotar a velocidade nem a agilidade de alguns dos seus companheiros de sector, prendia os defesas e movimentava-se sem bola como poucos. Isto sem falar no seu temível jogo de cabeça, ideal para o sistema de jogo “guarda-redes – pivot (Vinha) – avançado concretizador”. No Salgueiros, quando o famoso contra-ataque não funcionava, esse sistema era explorado ao máximo com a tripla Pedro Espinha – Vinha – Toni, ou posteriormente Silvino – Vinha – Artur Jorge Vicente.


Jogador de uma inteligência acima da média, combinava com os outros astros da equipa a um nível transcendental. Glórias passadas e futuras do futebol nacional, como Miguel Simão, Semedo, Abílio, Schuster ou Tulipa foram alguns dos beneficiados por jogar ao lado deste mito dos relvados nacionais.
É, sem dúvida, uma referência do “Efeito Poste de Electricidade” em Portugal.


Skuhravy

Gigante e assustador, dirão uns, Oportunista e cínico, dirão outros. Tudo isso, dirão ainda outros, diferentes dos outros que disseram oportunista e cínico, pois também o acham gigante e assustador.
Melhor marcador do mundial de 90 pela extinta Checoslováquia, em igualdade com Salvatore Schillaci, o rapaz que um dia sonhou jogar a bola viu-se de repente catapultado para os holofotes da fama, numa transferência relâmpago para o calcio. Lá, onde o futebol é defensivo e os defesas são do mais viril que existe no mundo da bola, Tomas, ainda “verde”, não conseguiu impôr o seu futebol.
O Cattenaccio não lhe deu tréguas, e apesar de lhe ser reconhecido valor, nunca conseguiu dar o salto para um grande da Série A. O melhor que fez foram 12 golos em 1994, ao serviço do Génova. Pela selecção, 49 jogos e 17 golos.
Aquele que poderia ter sido o intérprete de um fabuloso “Efeito Poste de Electricidade”, tentou a sua sorte em Portugal, pelo Sporting, onde novamente não teve sorte, apesar de ter batido alguns recordes nos testes físicos. Um remate à trave no Municipal de Chaves foi o porta-estandarte duma efémera passagem por terras lusas.
Com 1,91 metros e 88 quilos, teve o pássaro na mão, mas acabou por esmigalhá-lo.


Miguel Barros

Com 1,92 metros, foi um grande intérprete em potência desta “RT”. No entanto, a potência de nada serve sem a colocação.
Começou jovem, muito jovem, ao serviço dum Salgueiros que contava com grandes nomes como os jugoslavos Milovac e Nikolic, como Rui França e como os mitos vivos de Vidal Pinheiro que foram Madureira e Pedro Reis. Apesar de não ter sido muito utilizado, aprendeu.
As épocas seguintes, aquelas que podiam ter sido as da sua confirmação, não o foram. Salgueiros, Beira-Mar e Leça foram os clubes da 1ª divisão que tiveram Miguel Barros nas fileiras, sem no entanto desfrutarem do talento do altaneiro avançado.
Quem aproveitou foi o Maia, e na 2ª divisão Miguel viveu as suas melhores épocas: 9 golos em 97 e 12 em 98. No entanto, não lhe voltaram a chamar ao principal escalão e, triste, afogou-se nas divisões secundárias.


Birame

Trata-se de um jogador feito para ser usado nesta táctica. Não tinha jeito de pés, logo a sua maior utilidade era servir de grande tsunami, arrastando consigo os defesas contrários.
Tristemente para o nosso futebol em geral, e para jogador e clube em particular, Birame chegou, viu e viu mais um pouco.
Com 190 centímetros por 90 quilos, o senegalês tinha tudo para ser feliz. Era um caso evidente de dois “RT” num único atleta. Por um lado, tinha um físico óptimo para o “efeito poste de electricidade”. Por outro lado, o seu nome era agradavelmente ameaçador do ponto de vista futebolístico: Mame Birame Magave. Se os adversários não ficassem assustados com a sua envergadura, podia-se sempre afirmar que era um exímio praticante de voodoo. Com um nome desses, ninguém se atreveria a desconfiar dos poderes de Dr. Magave, especialista em todos os fenómenos ocultos que dá garantia de sucesso onde todos os outros médiuns falham.
Quiçá para a próxima, com um gestor de imagem como eu, Birame tenha melhor sorte.


Paulo Alves

Porventura o mais bem sucedido de todos os “postes de electricidade”, Paulo Alves teve uma carreira recheada de êxitos, coroada com chamadas assíduas à selecção nacional, onde marcou 7 golos em 13 internacionalizações. Apesar de desengonçado, era um jogador poderoso que absorvia a sua quota-parte de defesas, e ainda lhe sobrava tempo para fazer o gosto ao pé por diversas vezes.
Começou no Gil Vicente, mas foi no Marítimo que se destacou, formando uma dupla que denotava uma enorme cumplicidade, com Alex Bunbury. Disputado pelos dois grandes, acabou por ingressar no Sporting. Passadas três épocas, a aventura no estrangeiro, no Bastia, para regressar um ano depois a Portugal, para Leiria. Acabou por voltar a casa, onde joga, no Gil Vicente.

Trata-se de um avançado que, em condições normais, e dados os minutos de jogo, não só exerce de maneira soberba a “RT”, como também assegura uma dezena de golos por época.
Anos mais tarde, na época 99/00, houve uma dupla que ainda chegou aos calcanhares de Alex e Alves, e ao estatuto de heróis da região autónoma da Madeira. Foram eles Toedtli e Sumudica, que eram municiados por Bruno, em vez de Vado.


Brian Deane

Quando o Benfica o foi buscar ao Sheffield United, clube que alinhava na Division One * inglesa, cedo ecoaram gargalhadas em redor do novo reforço. Comentários como “epá… se a qualidade se contar ao quilo, é com certeza bom jogador”, ou “dá sempre jeito ter meninos desses para fazerem a barreira”.
Cegos, futebolisticamente incultos, não souberam reconhecer a “RT” que Souness queria aplicar ao “seu” glorioso.
Com uma capacidade física a fazer lembrar a cordilheira dos Alpes (não que fosse corcunda ou tivesse bossas como os camelos, mas simplesmente por ser brutalmente grande), Brian apresentava-se à massa associativa com apenas 184 centímetros que, no entanto, estavam bem condimentados pelos seus 87 quilos.
Serviu de “poste de electricidade” para as entradas dos dois avançados móveis, João Pinto e Nuno Gomes, e ainda deu dinheiro a ganhar ao clube, que o vendeu posteriormente ao Middlesbrough.


*divisão equivalente à nossa Liga de Honra.

Separados Quase à Nascença

Não é apenas em telenovelas que os gémeos são obrigados, dramaticamente, a tomar percursos distintos.
Já que entrámos no assunto, pergunto-me se por acaso houvesse um gémeo siamês a jogar futebol, será que contaria como um ou dois jogadores? Partindo do princípio que falamos de um siamês “comum”, ele terá duas cabeças e dois troncos, logo pensará como dois jogadores. Por outro lado, tem apenas duas pernas, como qualquer outro jogador… deixo o pensamento a pairar.

Também no futebol acontecem autênticos dramas familiares, com cada mano a ser obrigado a assinar por um clube diferente. Normalmente, fazem a formação no mesmo clube e, curiosamente, sempre no mesmo escalão. Depois podem passar por um ou outro clube juntos mas, mais cedo ou mais tarde, o destino acaba por vencer e o irmão mais talentoso acaba por subir na carreira, enquanto o outro fica, rancoroso, a preparar uma terrível vingança que irá ter lugar na ceia de jantar da família. Sim, há sempre um melhor que o outro… a vida é dura, pelo menos para um deles.
Outro aspecto curioso nos gémeos é que são raras as ocasiões em que formam, por exemplo, uma dupla de atacantes, ou de centrais, ou mesmo uma dupla de guarda-redes. Normalmente, um joga mais a frente do que o outro, tal como quando nasceram. Com certeza que não saíram do ventre da mãe lado a lado… Pergunto-me agora se por acaso os gémeos, à nascença, também têm aquelas cenas de cerimónia sobre qual irá passar primeiro pelo espaço apertado: “mano, faça favor!”, “não seja infantil, passe você!”.

O caso mais conhecido é o dos irmãos De Boer. E para aqueles que julgavam que o irmão mais talentoso era o que contemplava o público com mais rodriguinhos, estão redondamente enganados! Neste caso, como em diversos outros, o irmão que jogava a central, Frank, era um excelente jogador, enquanto que o seu mano, Ronald, era um avançado que, apesar de talentoso, ficava aquém do seu gémeo.

Passando, como sempre, do internacional para o nacional, apresento o caso dos gémeos com o melhor nome para gémeos de sempre: Zé-Tó e Tó-Zé.
Nascidos em Angola, fizeram-se jogadores nas escolas do Setúbal. Para a subida a sénior estava guardado o maior desafio à sua irmandade, pois foi nessa altura que se deu o grande cisma da família Ramos, para grande tristeza da mãe deles. Perdoem-me se não consegui transpôr para o papel todo (ou algum) o drama que acompanhou esta separação, mas vão poder vibrar com estes manos quando a sua história sair em dvd. Ou talvez não. Interessa?

Uma Questão de Confiança

No desporto rei, como em tudo na vida, a confiança é uma das mais importantes bases do sucesso. Obviamente que se um jogador não tiver jeito, pode ter muita confiança mas mesmo assim não será convocado pelo mister para o jogo de domingo à tarde. No entanto, o mesmo poderá acontecer a um grande jogador, se não tiver a confiança em alta.
Um baixo nível de confiança pode estar ligado a problemas pessoais ou de adaptação, falta de apoio do treinador, dores de barriga/cólicas, ou mesmo problemas no pagamento das prestações do zeppelin.
Um caso que salta à vista é o de Juan Roman Riquelme, astro argentino. No Boca Juniors, sob o comando de Carlos Bianchi, treinador que o idolatrava, Riquelme era um génio, a referência da equipa e um jogador que desequilibrava as partidas. Transferiu-se para Barcelona, onde encontrou uma realidade bem mais dura. O sisudo e geométrico Van Gaal cedo disse não precisar do jogador – primeiro aroma de falta de apoio -, o que juntamente com as inerentes dificuldades de adaptação a um novo continente, fez com que o nº10 proveniente das pampas fosse engolido por uma maré negra de falta de confiança. Na cidade condal nada fez, tendo sido emprestado posteriormente ao Villarreal.
Trata-se apenas de um exemplo de uma situação muito usual no futebol. Passando para o panorama nacional, podemos destacar algumas situações.


Andrejz Juskowiak

Avançado polaco melhor marcador dos jogos olímpicos de 1992, Jusko, como era carinhosamente apelidado, teve uma primeira época de difícil adaptação. No entanto, a segunda época começou de feição para o espadaúdo loiro. 10 golos nas 16 primeiras jornadas agoiravam uma época em grande para o ponta de lança. Fazendo uma regra de três simples, se em 16 jogos marca 10 golos, em 34 jogos marcaria 21 golos, suficientes para igualar Hassan no topo da lista de melhores marcadores, superando um Domingos Paciência em auge de carreira e a revelação do Tirsense, Marcelo.
Mas o futebol de ciência exacta pouco tem, e a mente humana é algo de obscuro e imprevisível, especialmente quando não se encontra medicada. Rezam as crónicas que Carlos Queiroz não tinha as qualidades humanas que eu exigi ainda há pouco, por ocasião do “anti efeito-sombra”. Nem a «vantagem de ter duas pernas», como certo dia um comentador verificou muito acertadamente, valeu a Juskowiak a redenção perante aquele que veio a treinar o Real Madrid.
Beneficiou o campeonato alemão, que passou a contar com um extraordinário ponta-de-lança.


Vítor Vieira

Grande promessa belenense, Vítor começou a época de 94/95 em grande nível, quer jogando como titular quer entrando já no decorrer da partida para invariavelmente injectar nova dinâmica ao seu flanco. Tudo isto nas seis primeiras jornadas, tendo voltado à equipa na 10ª e 11ª jornada, antes de ser descurado por completo pelo mister da altura, o luvas negras João Alves.
Será pelo Belenenses da altura possuír um plantel recheado de grandes valores para o lado direito, caso de Tulipa, M’Jid ou Zoran Ban? Ou será descriminação pela provável cena de peidos a caminho de Guimarães?* João Alves não teve a humanidade para ver que se tratava de um jovem de apenas 22 anos, e não soube extrair o néctar de uma fruta futebolística com uma doçura acima da média. Perdeu ele e o clube, enquanto “o nómada” foi fazer furor por outros clubes durante as épocas que se seguiram.

*Alusão a um provável acontecimento explicado no post dos Saltimbancos. Para mais, consultar o mesmo.

Factos e Figuras: Pedro Miguel, Cabelos ao Vento

Eu escrevo: rebelde de longos cabelos ao vento, sem lugar fixo na frente de ataque, sempre de olhos apontados para a baliza adversária. Vossa excelência lê: Pedro Miguel.
Primeiro em Leiria, posteriormente em Braga, e finalmente em Belém, o raçudo avançado sempre teve lugar cativo no onze, fosse qual fosse o mister. Jogadores como ele não se encontram facilmente em Portugal: rapidez de pensamento e execução, poder de arranque e velocidade acima da media, facilidade e espontaneidade no momento do remate, mas sobretudo, disposto a fazer uma missão de sacrifício, cansando e massacrando a defensiva adversaria em prol da equipa, com constantes e irreverentes deambulações. Se a tudo isto juntarmos o facto de só se pentear ao intervalo e no final do jogo, eis que estamos perante o Sansão dos nossos relvados.
Em Braga, onde se pode dizer que atingiu o auge da carreira, com o número 14 nas costas, fez uma dupla que ainda hoje provoca saudades nos adeptos do bom futebol. O nome do seu parceiro de ataque? Mladen Karoglan. Os dois, apoiados pelo tridente Vado-Barroso-Pedro Estrela, não davam descanso às defesas contrárias.
No Belenenses, o numero 9 não lhe trouxe tanta fama como o 14, mas mesmo assim fez uma dupla eficaz com Calila, ambos a flanquearem jogo para o ponta-de-lança marroquino Fertout. Perdeu-se à beira Tejo, com velhas lêndias do restelo a atacarem-lhe o tecido capilar, tendo acabado a carreira de forma inglória, a jogar em divisões secundárias, certamente aquários de dimensão reduzida para o grande peixe futebolístico que Pedro sempre foi.
Resta-nos recordar, com angustiante nostalgia, as longínquas tardes de bom futebol em que o sol brilhava nos olhos e no basto cabelo pintado a tons de Outono de Pedro Miguel, à medida que ele corria desalmado e salivante em direcção a baliza adversária.

Ovnis Futebolísticos, tomo 3

Parte IV: Travessias no deserto e o efeito-sombra

Quando um influente e famoso jogador sai de um clube, apresenta-se ao treinador a difícil e delicada tarefa de contratar nova mais valia para ocupar o lugar vago. Esta situação é muito sensível, pois o nível de exigência imposto à nova coqueluche é enorme. Ele terá a missão de, ao entrar em campo, “exorcizar o fantasma” do antigo craque. O jogador pode ser muito bom, mas se não conseguir fazer esquecer o seu predecessor, então a sua carreira no clube estará comprometida.
O maior exemplo desta situação aconteceu nas Antas, quando Vítor Baía abandonou o clube para ir jogar na Catalunha. O fantasma era gigante e intimidador. Diversos bravos guerreiros entraram nas masmorras das Antas de arma em punho dispostos a exorcizar o espectro de Baía. No entanto todas as tentativas saíram goradas, tendo o fantasma ceifado meia dúzia de carreiras.
Wozniak, internacional polaco, Lars Eriksson, Rui Correia, Pedro Espinha, Ivica Kralj e Costinha, todos eles tentaram sem sucesso calçar os grandes tamancos deixados vagos pelo antigo titular da selecção das quinas.
Situação macabra aconteceria posteriormente, quando Vítor regressou ao clube, ainda fragilizado por umas más épocas sob o comando de Van Gaal. Também ele teria que exorcizar o seu próprio fantasma. Um combate épico travou-se na mais alta torre da fortaleza das Antas, entre o Baía do presente e o Baía do passado, o Baía-real e o Baía-espectro. Depois de um início de combate duro, o verdadeiro Baía acabou por vencer e convencer os adeptos de que estava de volta… ou será que quem acabou a defender as redes dos dragões foi uma alma penada de um jogador que, outrora, foi craque?


Voltando à teoria, resolvi renomear o acto de “exorcizar o fantasma” como “Efeito-Sombra”, pois o jogador estará sempre coberto pela sombra do antigo jogador até o conseguir fazer esquecer.



ANTI - RATOEIRA TÁCTICA NÚMERO 1: O “EFEITO – SOMBRA”

Trata-se do traumático síndrome do pai-famoso (só que sem o pai), em que a nova contratação é inevitavelmente comparada ao jogador-mito que está encarregue de fazer esquecer. Trata-se de um efeito extremamente nefasto quer para a equipa como um todo, quer para o jogador em questão, daí ser uma anti-ratoeira táctica.



Remédio santo para o efeito-sombra

Trata-se de uma solução bastante simples. No entanto, como a maior parte das grandes soluções, por detrás da inerente simplicidade está uma genialidade que só está ao alcance de alguns misters.

Vou usar um simples exemplo. Com a transferência de Krassimir Balakov do Sporting para o Estugarda, criou-se um enorme vazio nos corações leoninos. Era necessário um novo número 10, um regista com pés mágicos e visão de jogo apenas comparável a Mário Artur e Amaral*.
No entanto, não foi o único a abandonar o clube… nessa mesma época também saíram Luís Figo (trata-se de um caso semelhante, cuja mesma solução pode ser aplicada), Pacheco, Capucho e Chiquinho Conde, entre outros.
Vou aqui tentar recriar a conversa entre Carlos Queiroz e Roberto Assis, contratado para substituir o número 10 búlgaro. O brasileiro irmão de Ronaldinho Gaúcho viria a ser novamente emprestado nessa época, provavelmente devido à não utilização deste método. No entanto, imaginemos:


CQ: Olá, Assis, é um prazer ter-te aqui no clube, e só te desejo uma fácil integração para começares a dar alegrias aos sócios o mais cedo possível.

RA: Obrigado, mister. No entanto, o peso de substituir o Balakov me pesa forte sobre os ombros.

CQ: Quem te disse isso? Não te preocupes, pá! Tu vens é substituir o Capucho.

RA: O quê? Você está falando sério? Então quem foi contratado para substituir Krassimir?

CQ: O Ouattara. Mas ele tem uns ombros maiores que a Grande Muralha da China, por isso acho que vai aguentar com a pressão.

RA: Mas eu pensava que o Ahmed vinha substituir o Chiquinho Conde, dado as parecenças físicas e futebolísticas…

CQ: Oh! Não sejas tonto! Quem vem substituir o Chiquinho é o Afonso Martins, que também é baixinho.

RA: Obrigado mister, você é demais.

CQ: Eu sei… se não quiseres substituir o Capucho, a sombra do Pacheco ainda está disponível, e assim metíamos o Vidigal na vaga do Capucho, mas isso já é contigo.


Com este simples exercício de manipulação mental, o treinador teria facilitado muitíssimo a vida do novo reforço, desbravando caminho para que ele exprimisse todo o seu futebol no relvado. Trata-se de uma ratoeira-mentalotáctica:



RATOEIRA MENTALOTÁCTICA NÚMERO 1: O “ANTI EFEITO-SOMBRA”

Nunca dizer à nova coqueluche do clube quem é que ele veio realmente substituir no coração dos adeptos, sob o risco de sub-rendimento provocado por um peso tremendo sob os ombros, ou excesso de sombra.


Fica aqui provada uma coisa: tal como existe uma reacção para cada acção, também existe uma anti-ratoeira para cada ratoeira. Trata-se, no entanto, de um processo delicado que exige, por parte do mister, uma grande capacidade humana e sensibilidade no limite da heterossexualidade.


*
Referência ao alargado ângulo de visão de ambos os jogadores, presente no post "Acho bem que tenhas uma boa razão para esse cabelo - O Drama dos Maus Penteados."