Thursday, April 12, 2007

Factos e Figuras: Pedro Miguel, Cabelos ao Vento

Eu escrevo: rebelde de longos cabelos ao vento, sem lugar fixo na frente de ataque, sempre de olhos apontados para a baliza adversária. Vossa excelência lê: Pedro Miguel.
Primeiro em Leiria, posteriormente em Braga, e finalmente em Belém, o raçudo avançado sempre teve lugar cativo no onze, fosse qual fosse o mister. Jogadores como ele não se encontram facilmente em Portugal: rapidez de pensamento e execução, poder de arranque e velocidade acima da media, facilidade e espontaneidade no momento do remate, mas sobretudo, disposto a fazer uma missão de sacrifício, cansando e massacrando a defensiva adversaria em prol da equipa, com constantes e irreverentes deambulações. Se a tudo isto juntarmos o facto de só se pentear ao intervalo e no final do jogo, eis que estamos perante o Sansão dos nossos relvados.
Em Braga, onde se pode dizer que atingiu o auge da carreira, com o número 14 nas costas, fez uma dupla que ainda hoje provoca saudades nos adeptos do bom futebol. O nome do seu parceiro de ataque? Mladen Karoglan. Os dois, apoiados pelo tridente Vado-Barroso-Pedro Estrela, não davam descanso às defesas contrárias.
No Belenenses, o numero 9 não lhe trouxe tanta fama como o 14, mas mesmo assim fez uma dupla eficaz com Calila, ambos a flanquearem jogo para o ponta-de-lança marroquino Fertout. Perdeu-se à beira Tejo, com velhas lêndias do restelo a atacarem-lhe o tecido capilar, tendo acabado a carreira de forma inglória, a jogar em divisões secundárias, certamente aquários de dimensão reduzida para o grande peixe futebolístico que Pedro sempre foi.
Resta-nos recordar, com angustiante nostalgia, as longínquas tardes de bom futebol em que o sol brilhava nos olhos e no basto cabelo pintado a tons de Outono de Pedro Miguel, à medida que ele corria desalmado e salivante em direcção a baliza adversária.

Ovnis Futebolísticos, tomo 3

Parte IV: Travessias no deserto e o efeito-sombra

Quando um influente e famoso jogador sai de um clube, apresenta-se ao treinador a difícil e delicada tarefa de contratar nova mais valia para ocupar o lugar vago. Esta situação é muito sensível, pois o nível de exigência imposto à nova coqueluche é enorme. Ele terá a missão de, ao entrar em campo, “exorcizar o fantasma” do antigo craque. O jogador pode ser muito bom, mas se não conseguir fazer esquecer o seu predecessor, então a sua carreira no clube estará comprometida.
O maior exemplo desta situação aconteceu nas Antas, quando Vítor Baía abandonou o clube para ir jogar na Catalunha. O fantasma era gigante e intimidador. Diversos bravos guerreiros entraram nas masmorras das Antas de arma em punho dispostos a exorcizar o espectro de Baía. No entanto todas as tentativas saíram goradas, tendo o fantasma ceifado meia dúzia de carreiras.
Wozniak, internacional polaco, Lars Eriksson, Rui Correia, Pedro Espinha, Ivica Kralj e Costinha, todos eles tentaram sem sucesso calçar os grandes tamancos deixados vagos pelo antigo titular da selecção das quinas.
Situação macabra aconteceria posteriormente, quando Vítor regressou ao clube, ainda fragilizado por umas más épocas sob o comando de Van Gaal. Também ele teria que exorcizar o seu próprio fantasma. Um combate épico travou-se na mais alta torre da fortaleza das Antas, entre o Baía do presente e o Baía do passado, o Baía-real e o Baía-espectro. Depois de um início de combate duro, o verdadeiro Baía acabou por vencer e convencer os adeptos de que estava de volta… ou será que quem acabou a defender as redes dos dragões foi uma alma penada de um jogador que, outrora, foi craque?


Voltando à teoria, resolvi renomear o acto de “exorcizar o fantasma” como “Efeito-Sombra”, pois o jogador estará sempre coberto pela sombra do antigo jogador até o conseguir fazer esquecer.



ANTI - RATOEIRA TÁCTICA NÚMERO 1: O “EFEITO – SOMBRA”

Trata-se do traumático síndrome do pai-famoso (só que sem o pai), em que a nova contratação é inevitavelmente comparada ao jogador-mito que está encarregue de fazer esquecer. Trata-se de um efeito extremamente nefasto quer para a equipa como um todo, quer para o jogador em questão, daí ser uma anti-ratoeira táctica.



Remédio santo para o efeito-sombra

Trata-se de uma solução bastante simples. No entanto, como a maior parte das grandes soluções, por detrás da inerente simplicidade está uma genialidade que só está ao alcance de alguns misters.

Vou usar um simples exemplo. Com a transferência de Krassimir Balakov do Sporting para o Estugarda, criou-se um enorme vazio nos corações leoninos. Era necessário um novo número 10, um regista com pés mágicos e visão de jogo apenas comparável a Mário Artur e Amaral*.
No entanto, não foi o único a abandonar o clube… nessa mesma época também saíram Luís Figo (trata-se de um caso semelhante, cuja mesma solução pode ser aplicada), Pacheco, Capucho e Chiquinho Conde, entre outros.
Vou aqui tentar recriar a conversa entre Carlos Queiroz e Roberto Assis, contratado para substituir o número 10 búlgaro. O brasileiro irmão de Ronaldinho Gaúcho viria a ser novamente emprestado nessa época, provavelmente devido à não utilização deste método. No entanto, imaginemos:


CQ: Olá, Assis, é um prazer ter-te aqui no clube, e só te desejo uma fácil integração para começares a dar alegrias aos sócios o mais cedo possível.

RA: Obrigado, mister. No entanto, o peso de substituir o Balakov me pesa forte sobre os ombros.

CQ: Quem te disse isso? Não te preocupes, pá! Tu vens é substituir o Capucho.

RA: O quê? Você está falando sério? Então quem foi contratado para substituir Krassimir?

CQ: O Ouattara. Mas ele tem uns ombros maiores que a Grande Muralha da China, por isso acho que vai aguentar com a pressão.

RA: Mas eu pensava que o Ahmed vinha substituir o Chiquinho Conde, dado as parecenças físicas e futebolísticas…

CQ: Oh! Não sejas tonto! Quem vem substituir o Chiquinho é o Afonso Martins, que também é baixinho.

RA: Obrigado mister, você é demais.

CQ: Eu sei… se não quiseres substituir o Capucho, a sombra do Pacheco ainda está disponível, e assim metíamos o Vidigal na vaga do Capucho, mas isso já é contigo.


Com este simples exercício de manipulação mental, o treinador teria facilitado muitíssimo a vida do novo reforço, desbravando caminho para que ele exprimisse todo o seu futebol no relvado. Trata-se de uma ratoeira-mentalotáctica:



RATOEIRA MENTALOTÁCTICA NÚMERO 1: O “ANTI EFEITO-SOMBRA”

Nunca dizer à nova coqueluche do clube quem é que ele veio realmente substituir no coração dos adeptos, sob o risco de sub-rendimento provocado por um peso tremendo sob os ombros, ou excesso de sombra.


Fica aqui provada uma coisa: tal como existe uma reacção para cada acção, também existe uma anti-ratoeira para cada ratoeira. Trata-se, no entanto, de um processo delicado que exige, por parte do mister, uma grande capacidade humana e sensibilidade no limite da heterossexualidade.


*
Referência ao alargado ângulo de visão de ambos os jogadores, presente no post "Acho bem que tenhas uma boa razão para esse cabelo - O Drama dos Maus Penteados."

Ovnis Futebolísticos, tomo 2

Parte III: Tiro no pé

Não são raras as vezes que o anónimo adepto de futebol questiona “quem serão os olheiros do meu clube?”. Isto após assistir à mais recente e dispendiosa contratação do seu clube a tratar o esférico por meritíssimo.
Quero nesta secção destacar algumas dessas contratações e perguntar da mais alta das montanhas que não nos congelam a ponta do nariz e do fundo dos meus pulmões, mas com uma voz peculiarmente frouxa: “porquê?”. Quão amblíope poderá ser um olheiro até o considerarem legalmente cego?
Eu quero, palavra de escuteiro que nunca fui, acreditar que eles não são tão maus quanto aparentaram. Inadaptação, casco partido, ou os já referidos peidos nauseabundos de Vítor Vieira no autocarro da equipa, deve haver uma explicação verosímil para tamanha aparente falta de jeito. Aos visados, que tenham tido noutros clubes melhor fortuna do que em Portugal.


Gil Baiano

Se é para começar, que se começe em grande! Com uma espessura capilar inversamente proporcional à qualidade futebolístico, Gil Baiano chegou ao aeroporto da Portela com um discurso vencedor: “sou um defesa com grande projecção ofensiva, e bato bem livres”.
Estávamos na época 96/97. De Gil esperava-se no mínimo um Cafú obeso. Mas tal como se diferenciava do capitão da canarinha pelo diferente ramo capilar por onde enveredou, poucas semelhanças também foram encontradas nos atributos futebolísticos.
Com a venda do latifundiário do terreno lateral direito dos últimos anos, Fernando Nélson, candidataram-se à posição Gil Baiano, Abdelilah Saber e Luis Miguel. 3 sapos para um galho. Robert Waseige, treinador na altura, ainda beijou Gil em busca dum bem aparecido principe para a faixa dextra defensiva, mas após 10 jornadas a titular e uma derrota em Setúbal, o brasileiro largou definitivamente o lugar. Passada outra jornada, o amargo de boca surgiu entre os arcaicos e mirrados lábios do treinador belga que, vítima de um há muito anunciado falhanço colectivo, foi psicológicamente chicoteado, dando lugar a um tal de Octávio “muito trabalho” Machado.


Balajic

Chegou a Alvalade proveniente do Varteks, consagrado clube croata. Fugia da instabilidade dum país na ressaca da guerra civil, e esperava encontrar a paz nas margens do Tejo.
Possante (1,83 metros por 78 kg.), auto caracterizou-se como sendo uma mescla entre Paolo Maldini e Roberto Carlos. Esqueceu-se foi de especificar quais as características que possuía de cada um. Arriscamos aqui dizer que de Maldini, porventura o chulé e o número que calça. De Roberto, o traulitar projectado e o gosto por Goran Bregovic*.
Em Alvalade, aquele que outrora havia sido visto como potencial sucessor de Jarni na selecção croata pouco ou nada fez. A forte concorrência do central Vujacic adaptado à esquerda e recentemente entrado na casa dos intas, de um Pedrosa que sonhava em ser trinco (a tendência a posicionar-se no centro do terreno era de moer a paciência a qualquer adepto leonino), ou mesmo de um Carlos Fernandes acabado de chegar a sénior, também não facilitaram a adaptação do potencial Roberto Maldini. Ou seria Paolo Carlos?

*compositor sérvio.


Ivica Krajl

O resumo da carreira de Krajl em Portugal resume-se a meia dúzia de jogos, os correspondentes frangos, e muitas piadas com o seu nome.
Não está mau, para quem custou meio milhão de contos e era titular da selecção jugoslava que, como é apanágio da maioria dos países de leste, é uma famosa escola de guarda-redes.
Fazendo as contas, se houver 15 anedotas* com o nome ou com os “patos” de Ivica, fica qualquer coisa como 33.000 contos a graçola.
Assim sendo, podemos eleger Ivica Krajl como o mais caro comediante do futebol português!

*Número estimado depois de uma intensa pesquisa junto dos maiores (fisicamente) comediantes nacionais.


Michael Thomas

Antigo internacional inglês e estrela em clubes como o Liverpool e o Arsenal de Londres, veio para a Luz rotulado como o “homem que vai pôr este meio campo na ordem”. No entanto, vá-se lá saber porquê, os sempre ponderados, escrupulosos e elegantes aficionados benfiquistas nem lhe deram o benefício da dúvida. Mal os colegas lhe endereçavam a bola, um ensurdecedor coro de assobios viajava do terceiro anel ao relvado. Pura e simplesmente, o já-não-tão-jovem-como-outrora Michael não conseguia estabelecer o contacto silencioso com o couro.

Dono duma velocidade digna dum poste de electricidade, compensava através da perfeição com que executava a vertente táctica do jogo. Canalha esta sociedade que habitamos, na qual as qualidades tácticas são apreciadas somente por treinadores e comentadores, escapando ao olhar arcaico do vulgar adepto de futebol. Só passa a redondinha para o lado? Assobia! Não sobe perigosamente no terreno para fazer o gosto ao pé? Assobia! Não tem as unhas cortadas convenientemente? Assobia e cospe!


Como certos gurus do relato diriam, tratava-se de um jogador «esclarecido, de cultura táctica, importante para o grupo de trabalho». Como certos misters de bancada diriam, isso é uma boa descrição para o encarregado da relva, para o condutor do autocarro dos jogadores, ou para o cabrão que anda a pinar a minha mulher.

Voltando às assobiadelas, todos nós sabemos o quão desagradável é ouvir um enorme coro deles vindo de 50.000 pessoas. Ou talvez não o saibamos, mas com um pouco de senso comum enquanto equipados com justos calções encarnados, certamente que conseguimos imaginar. Para aqueles que ainda estão com dificuldades, imaginem o incómodo que será voar com um bando de aves barulhentas enquanto migram para climas mais quentes (partimos do pressuposto que o leitor se imaginou como uma das aves, ao invés de como um ser humano mutante alado).

Se cada vez que a bola tocava em Thomas era meio caminho andado para uma valente enxaqueca, os jogadores do Benfica começaram a fazer o lógico: ninguém passava a bola ao trinco britânico. Este ficava no meio do campo a pedi-la incessantemente, mas o esférico, para bem dos tímpanos ao nível do relvado, nunca lhe chegava. Assim sendo, Souness acabou por ver que, a atacar, o seu Benfica jogava 10 contra 12, pois Michael Thomas cortava uma imensidão de linhas de passe. E foi assim que o jogador que veio da terra dos Beatles caiu em desgraça no seio da equipa e perdeu o lugar como patrão do miolo encarnado.

Não obstante, e apesar de ter chegado a Portugal putrefacto, Michael Thomas foi sempre um digno cumpridor do código de conduta do clube, algo que salutamos, ou não fosse o nosso lema «Antes um valente aselha mas bom profissional do que um anão em campo».


Jean Jacques Missé-Missé

Ao falar do treinador belga Robert Waseige, é inevitável falar do seu menino d’oiro. O único jogador que veio do Charleroi para o Sporting aquando da contratação do treinador foi este avançado móvel, o internacional camaronês Jean Jacques Missé-Missé.
Rotulado de diabo para qualquer defesa, tratava-se de um deambulador ofensivo que transformava a cabeça de qualquer defesa em papas de aveia com as suas constantes movimentações e raides. Tantas eram as deambulações que terminou deambulando-se constantemente para fora das zonas de finalização, acabando deambulado no banco de suplentes: vítima dos resultados, o treinador não durou muito tempo, deixando o seu filho africano órfão de pai em pleno Estádio de Alvalade. Octávio não engraçou com o avançado, e a concorrência também não facilitou: Paulo Alves (lenda viva do efeito-poste*), Ahmed Ouattara (esse tractor humano originário da Serra Leoa) e César Ramirez (Platini do Paraguai) nunca deram grandes veleidades a Jean Jacques.
Prosseguiu carreira na Turquia, mas o trauma da orfandade nunca mais foi superado, e os olhos de Missé-Missé jamais brilharam como quando perto de Waseige.
No entanto, fica para a história, assentado nos registos como o jogador que iniciou a lenda de grandes avançados com o número 16 na dorsal verde-e-branca: Missé-Missé, César Ramirez e, posteriormente, Mário Jardel.

*Ratoeira táctica que será desenvolvida atempadamente.


Julian Kmet

Ao pensar no extremo esquerdo, começamos a ponderar qual será o tempo de adaptação razoável necessário para que um jogador se sinta integrado no novo clube e na nova realidade com que se vê deparado.
Kmet chegou a Alvalade em 1998, juntamente com Duscher. Foi uma dispendiosa contratação que visava solucionar os problemas do lado esquerdo leonino, órfão desde há muito.
Duscher tornou-se imediatamente num elemento indispensável no meio campo leonino. Kmet continuou a passear o seu belo penteado na parte de fora das linhas laterais. Estranho foi o facto do mister Jozic não lhe ter dado praticamente tempo nenhum de jogo para que este provasse diante do público ser merecedor de confiança.
Depois de muito estudo decidi estabelecer o tempo razoável de integração em meia época. Beto Acosta chegou a meio da época e só começou a “bombar” na época seguinte. Carlos Paredes também não foi titular mal chegou ao Porto. São jogadores que vinham com provas dadas nos países de origem, e após uns meses mais duros mostraram todo o seu valor. Não duvido que Kmet fosse um bom jogador na América do Sul, pois havia sido internacional sub-20 e custou ao Sporting mais de meio milhão de contos. Infelizmente, nessa altura, 2 coisas jogaram em prejuízo do atleta: o facto de a paciência (humana) ter limites, e a triste circunstância de ainda não ter sido inventado o “adaptador” (máquina em que o jogador entra por uma extremidade, ainda inadaptado ao clube, saíndo da ponta oposta no limiar das suas capacidades futebolísticas). Azar, Julian Kmet. Que grande azar.


Jacaré

Chegou ao Bessa na época de 97-98 rotulado de avançado matador. Na altura foi a contratação mais cara de sempre do clube axadrezado. Proveniente da já mítica cantera do Avaí F.C., vestiu o número 18 para, juntamente com Wouden e Ayew, fazer esquecer Jimmy, Nuno Gomes e Simic, recentemente alienados da prateleira patrimonial do bessa.
Trata-se de mais um flagrante exemplo do dramático “Efeito-Sombra” , que conta com quase tantas vítimas como a própria morte por excesso de dança. Não só vinha substituir os avançados atrás referenciados, mas também tinha sobre os seus ombros o peso do milenar legado de inúmeros outros avançados brasileiros que equiparam de xadrez: Marlon Brandão, Artur, e até Nélson Bertolazzi.
Com toda esta herança e espectativa acumulada, era difícil triunfar. No entanto, deixo aqui uma palavra de apreço a este jogador, proprietário de um bom nome futebolístico, ao qual porventura não foram dadas as oportunidades necessárias para que vingasse em terras lusas.



Muitas destas contratações-cataclismo, em que o valor monetário dos atletas largamente ultrapassa a sua valia futebolística, são resultado de uma travessia no deserto, ou seja, um período sem títulos em que a fome aperta e o desespero toma o lugar da razão.
Outra das razões será a venda de um importante jogador do clube, e a emergente necessidade de arranjar um substituto à altura. Esta situação põe não só o clube, que tem pressa para arranjar essa nova mais valia, em pressão, mas também o novo reforço, rotulado de craque e de nova coqueluche do clube, mas com uma terrível sombra atrás de si, a do seu predecessor.
Assim sendo, achei que a sequência lógica da secção tiro no pé fosse uma secção relativa às duas justificações mais patentes para este fenómeno.


p.s.: para as mentes mais críticas, contra os ímpetos da vontade poucas críticas são válidas. Escrevi sobre estes. Queria e podia ter escrito sobre Washington Rodriguez, Escalona, Christian Uribe, Carlos Bossio, Ivica Dudic, Silvio Maric, e em muitos outros duma lista infelizmente no roçar do interminável. Digo isto pois sei à priori que já iam fazer comentários a largar nomes que olvidei. Mesmo assim, larguem os nomes, sei que vos dá particular júbilo, e com este apontamento prévio, asseguro-me de que "trabalho como rede".

Sunday, April 1, 2007

Ovnis Futebolísticos: Alguns Fenómenos Inexplicáveis

Parte I: Desaparecido em combate

Sim, trata-se do título de um filme de culto, protagonizado pela acção em pessoa, Chuck Norris, cuja barba é feita de pura destruição. Aplicado ao futebol, falamos daqueles jogadores que estariam, à priori, destinados a grandes vôos mas que, subitamente, caíram como patos abatidos por um caçador que deixa a mulher carente, de madrugada, para ir largar chumbo.
Por vezes basta uma lesão na pior altura, um frango infeliz, um arroto na tromba do mister, ou ter um affair com a filha do presidente para um jogador cair em desgraça. Vou salientar um caso em particular, cuja verdadeira razão para o infortúnio desportivo desconheço. Pior. Nem me ralo.

Trata-se do drama de um menino bonito de Leiria, que arregalava os olhos da assistência cada vez que tinha a bola nos pés. Chegou à selecção sub-21, falou-se do interesse dos grandes e, subitamente, a terra parece que o engoliu. Pergunto eu e com certeza muitos dos leitores, que é feito de Bakero?
Extremo direito de grande rapidez, quer de pernas quer de execução, o homónimo do ex-capitão do barça era um jogador com um futuro aparentemente brilhante.
Assim sendo, após uma brilhante época na cidade do lis transferiu-se para o país vizinho, para alinhar pelo Sevilha. Acontece que os jovens, por vezes, perdem-se, terminando em tristes pacotes de leite. É certo e sabido que o vinho e as rameiras são mais baratas no país vizinho. A experiência correu mal, e Bakero voltou para Portugal, onde ainda jogou no Marítimo e no Braga, seguindo-se o Salgueiros e agora, o Bragança. Triste fado o deste extremo que chegou a fazer lembrar mitos como Vítor Vieira e Calila.



Parte II: One hit wonders

O seu nome é Zé. Nunca ninguém ouviu falar dele. Entra em campo a 15 minutos do final de uma partida que empatada em pleno Estádio da Luz. Na direita, finta dois defesas estafados, varia para o centro, tenta o remate, o contacto da chuteira com o esférico não é o adequado, propiciando ao mesmo um efeito raro que atraiçoa o guarda-redes, excessivamente confiante devido ao espesso bigode, que muito másculo o faz sentir. É golo. Zé está nas nuvens. Mas toda a gente sabe que as nuvens são água condensada, incapaz de suportar um ser humano. Zé cai durante 4 minutos, apenas para terminar esborrachado numa estrada perto de Sines.
A história de Zé serve de exemplo para muitos atletas que subiram alto sem pára-quedas. Exemplos seguem-se.


Sabry

Em pleno jogo da taça UEFA, o Benfica defrontava o PAOK, e a defesa encarnava entrava em pânico quando a bola chegava aos pés de um senhor. De gola subida e conduzindo a bola junto ao pé esquerdo, o internacional egípcio Sabry era um jogador imprevisível, perigosíssimo e com duas gengivas, cada uma com um basto número de dentes.
Passada a eliminatória, o clube da Luz não hesitou e contratou o estratega. Tal como um canal de televisão a comprar filmes, também o benfica comprou em pacote. Com o fabuloso número 10, veio o muito discutível trinco/central Machairidis.
Há jogadores que sofrem de problemas de adaptação. O mínimo que se pode dizer de Sabry é que sofre do inverso, ou seja, de problemas de desadaptação. O processo tornou-se tradição: Chegava como titular ao clube, fazia furor, apenas para começar a perder a chama até o acabarmos por ver sentado no banco de suplentes. Começou em grande, no Benfica. Desceu uns degraus, para jogar no Marítimo, e acabou na Amadora, onde já nem é titular.
Uma queda gradual, mas nem por isso menos dolorosa.


Formoso

Um pé esquerdo que é um mimo. É a primeira coisa que vem à cabeça de grande parte dos adeptos de futebol, quando pensam em António José Faria Formoso. Pode não ser exactamente a palavra mimo. Pode ser a palavra maravilhoso, ou quase único, ou mesmo possuídor de cinco dedos e respectivas unhas. No entanto o povo é unânime quando classifica a perna canhota de Formoso como uma das mais poderosas que se passearam nos nossos relvados nos últimos anos.
Pode-se mesmo chegar ao ponto de comparar Formoso no lado esquerdo do Gil Vicente com Beckham no lado direito do Manchester. Dos lados opostos a mesma comparação poderia ser feita, com Giggs e Carlitos.
Proveniente do Infesta, chegou a Barcelos um perfeito desconhecido. No entanto, deu um pontapé rumo ao estrelato, tendo sido anunciada regularmente a sua transferência para a Luz. Nada disso aconteceu. Ao invés seguiu para Braga para, em seguida, a terra se abrir e o engolir. Nunca mais ninguém o viu nos grandes palcos do nosso futebol.
Triste, mas assim é o futebol. Acordas para tomar o pequeno almoço e dás por ti em pleno crepúsculo. Pior! Os cereais estão moles.
Na retina fica um lance fabuloso (de entre os muitos golos de belo efeito que marcou): Formoso marca, de livre directo e de uma distância considerável, um fabuloso golo ao ângulo. No entanto, o árbitro ordena a repetição. Impassível, Formoso volta a colocar a bola exactamente no mesmo local, para de seguida a rematar exactamente do mesmo modo, vendo-a entrar exactamente no mesmo local onde havia entrado há instantes. Pura e simplesmente magistral!


Ivo Damas

A história da ascensão e queda deste jovem extremo conta-se numa dúzia de linhas.
Num atípico jogo para a Taça de Portugal, o irreverente Ivo marca 3 golos ao Futebol Clube do Porto, que no entanto foram insuficientes para bater os azuis e brancos, que triunfaram por 4-3. Ivo poderia afirmar que trocaria o hat-trick pela vitória do seu Maia, mas provavelmente estaria a mentir. Essa exibição levou-o para Alvalade, com um contrato de 7 anos.
Gostaria agora de continuar a narrar a história de Damas, que no seguimento lógico do que vinha a relatar, seria um belo conto de um jovem que vinga num grande do nosso futebol, é feliz e casa com uma modelo de tetas magníficas. No entanto, a história praticamente acaba aqui, pois nunca mais se ouviu falar no jogador. Não vou dizer que não desse um filme, pois hoje em dia quase tudo dá para fazer um filme. No entanto, posso dizer que não dava um grande filme. Talvez uma curta metragem.


Marcos

Chegou a Portugal aos 20 anos, proveniente das divisões distritais brasileiras, para ajudar o Rio Ave a subir para a 1ª divisão. Objectivo cumprido com Marcos a afirmar-se como um dos esteios da defesa. Os olheiros do clube não só haviam descoberto um possante defesa, mas também um goleador. “Defesa goleador? É mais provável encontrar um corsário sapateante na Coreia do sul!”, dirão muitos leitores. No entanto, na sua terceira época em Vila do Conde, Marcos marcou 9 golos. Número impressionante para um central, pelo menos foi o que acharam os responsáveis do PSV, que o contrataram. Mas a Holanda é fria e a veia goleadora de Marcos congelou. É tão fria que congelou para sempre.
Foi então emprestado ao Sporting, onde também não conseguiu confirmar as boas indicações dadas no Rio Ave. A queda em desgraça culminou, ironicamente, com a maior manifestação de amor pelo futebol alguma vez testemunhada pelos adeptos leoninos: em pleno jogo da taça UEFA, frente aos noruegueses do Viking, Marcos embrulhou-se, inexplicavelmente, sozinho e sem protecção com o esférico em plena grande área, dando origem ao penalti do 3-0 que confirmaria a escandalosa eliminação do Sporting.

Nuno Afonso, O Exilado Político

Também conhecido como o Gorbatchev português, dada a nódoa de vinho na testa que tem em comum com o antigo presidente russo, Nuno Afonso é mais um saltimbanco do futebol nacional.
Tendo começado como promessa benfiquista, cedo as expectativas se tornaram num fardo demasiado pesado nos ombros do ainda “verde” central. No entanto, o internacional sub-21 não se deixou abater. Pelo contrário.
Ergueu a cabeça e apontou a ínsula epidermal para outros horizontes clubísticos. E não foram poucos. Belenenses, Campomaiorense, Salamanca, Vitória Futebol Clube, Paços de Ferreira, Marítimo e Aves foram os mais renomados.
Pulgas anais ou exílio político, a dúvida fica. A afirmação é polémica, mas numa altura em que a Rússia se tardava a encontrar, não era politicamente correcto contar com um sózia do implementador da perestroika nas fileiras.
Ficam na memória, no entanto, as duplas fabulosas que formou. Com Beto em Campomaior, com José Rui em Setúbal ou com Alex Bach na Madeira, as defesas ficavam tão sólidas quanto qualquer política fiscal soviética. Para quem não está dentro da história da ex-URSS, imagine a densidade dum sumo de patê. Era assim de sólida.